twitter

DE REPENTE, O SILÊNCIO!

No decorrer desta pandemia fomos alertados, pela maioria dos nossos Órgãos de Comunicação Social (OCS), para a situação dos lares de idosos no nosso país. Tendo, então, existido muitas denúncias, verificações e até o encerramento de alguns deles deficitários nos mais variados aspetos do seu funcionamento. Sobretudo, de como as vidas da nossa terceira idade andavam, em alguns deles, a ser desprotegidas, maltratadas e, direi, descartadas. Só que, entretanto, a tónica foi-se esbatendo ao ponto de tudo ficar em banho-maria ou, praticamente, esbatida. No entanto todos sabemos que tal não é sinónimo de que esteja tudo bem nessas instituições. É que as notícias vão surgindo em catadupa e umas acabam por abafar as outras, como foi o caso do conflito entre a Ucrânia e a Rússia em que os OCS se viraram, quase em exclusivo para aquela desgraça, graças ao russo “DDT” (Dono Daquilo Tudo), Vladimir Putin. Cujas imagens, difundidas pelos telejornais, nos mostravam milhares de cidadãos a saírem em debandada daquele país, sobretudo mulheres e crianças. Em face disso, estranhei não ver, entre os refugiados, cidadãos mais velhos. Pelo que só mais tarde consegui enxergar a saída de alguns deles. Porém, dos que ficaram sozinhos e abandonados nas suas casas, não houve notícia alguma do que lhes sucedeu quando as mesmas foram destruídas. Da mesma forma, que nem uma referência se ouviu acerca dos lares de idosos (se é que lá existem), nem às sortes a que foram devotados os seus utentes. Está mais que visto que o tema dos seniores é não só desinteressante – nesta sociedade consumista do século XXI –, como incómodo, sobretudo para quem está, ainda, no auge do seu vigor físico e mental. Assim como é considerado algo horripilante dar-lhes a papa, mudar-lhes a fralda e fazer-lhes a higiene diária tal como eles, em novos, fizerem aos seus filhos. Ou ter de os visitar, a miude, para saber do seu estado anímico, ou da ansiedade e angústias de que padecem, bem como se estão a ser bem, ou mal, tratados. Daí, não termos vislumbrado famílias, nos mais diversos países, dispostas a acolherem idosos ucranianos no seu seio. Só gente, no viço da vida, capaz de ser uma mais-valia para os acolhedores. Com efeito, deste abrandamento relativo à fiscalização aos abusos e às condições dos lares de idosos, em Portugal, não se augura nada de bom. Isto, porque se foi tema durante o auge da propagação do coronavírus de repente, o silêncio! É que nem nas campanhas dos três atos eleitorais, em 2021 e 2022, houve compromisso estabelecido nesse sentido. Do mesmo modo que, agora, este conflito na Europa de leste veio adormecê-lo. Ademais, não se vislumbra qualquer resultado de alertas surgidos e dos vários inquéritos e investigações que, então, se iam fazer, ou se fizeram. Mormente, estou a lembrar-me do estado deplorável em que estavam a funcionar alguns lares e casas de famílias de acolhimento, mas que nada mais se ouviu sobre o assunto. Estou a lembrar-me daqueles que foram alvo de reportagem dos OCS, os quais nos passavam imagens degradantes em quadros arrepiantes, tais como: quartos sobrelotados, enfermarias sem pessoal médico; falta de higiene limpeza; omissão de cuidados básicos; doentes tratados aos repelões; instalações em mau estado de conservação com vazamento nas casas de banho; ostensivo descuido nas terapias e recuperação; zonas de lazer indignas; racionamento e má qualidade nas refeições, etc. Temo, pois, que o atual retrato tirado ao que se passa nos lares do nosso país, não seja muito diferente daquele que vimos no início do ‘Covid-19’. E que muitos dos nossos idosos continuem em silêncio, abandonados, desprotegidos e a morrer, lentamente, em armazéns disfarçados de lares. Já que, como um dia escrevera a minha saudosa amiga, Matihlde Acchiaiuolili: – “já não cabemos lá em casa”. Ou seja, fazem-se grandes habitações e, por vezes, autênticos palacetes, mas onde não há lugar para os velhinhos da família.
Autor: Narciso Mendes
DM

DM

21 março 2022