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Das Invenções

Sob o título “Algumas coisas que é preciso inventar“, numa espécie de anúncio de uma pragmática montra dos sonhos ou desejos, o jornal Correio do Minho de 12 de março de 1931 (edição nº 1435, p. 1), socorrendo-se da humilde citação de um jornal alemão não identificado, desfilava uma lista de inventos que, uma vez realizados, muito poderiam contribuir para melhorar a comodidade quotidiana dos comuns mortais, a saber: “uma navalha de barba que não precise de ser amolada; um guarda-chuva de bolso; um método prático para suprimir os ruídos e a trepidação inerente ao tráfego citadino; uma pena estilográfica que nunca seja preciso encher de tinta; um chapéu impermeável que possa guardar-se na algibeira do casaco; um acendedor que acenda sempre à primeira vez; uma bicicleta elétrica”.

Facilmente o leitor pode constatar que todos os desejos constantes da lista atrás foram, entretanto, satisfatoriamente cumpridos, sendo que, justamente, a bicicleta elétrica terá surgido em último lugar. Muitos outros inventos ou descobertas foram materializados nas décadas subsequentes até aos nossos dias, mas um deles sobrelevou em importância dramática. Refiro-me à bomba atómica, revelada ao mundo pelos americanos em 1945, a qual serviu para acelerar o fim da 2.ª Guerra Mundial após o quase apocalipse que projetou sobre Hiroxima e Nagasáqui, a 6 e 9 de agosto desse ano.

Após 1945, durante quatro anos a supremacia militar dos EUA no mundo exibiu-se inequívoca, assente no exclusivo da posse da nova e temível arma. Em 1949, porém, a ex-URSS anunciou que também possuía a bomba atómica. Nos EUA, em pânico porque a agora superpotência rival do outro lado “cortina de ferro” também possuía a grande arma, instalou-se um clima de “caça às bruxas” alimentado pelo machartismo, que constrangeu ou perseguiu muitos americanos, desde os comunistas até aos liberais.

Hoje, algo surpreendentemente (?), a Europa vê-se de novo envolvida nas sombras da guerra. Por enquanto, submergindo particularmente os ucranianos, como também os russos (quantos mortos de cada lado?), a mancha da guerra alastra, todavia, os seus efeitos pelo resto do continente europeu e até pelo mundo, na forma de uma crise inflacionista e da ameaça de escassez frumentária.

A história do mundo, e designadamente da Europa, é preenchida por um cortejo de guerras, sabemo-lo. A evolução recente da ciência e da técnica, que exponenciou muitos indicadores de produtividade, designadamente na produção industrial e agrícola, escalou tenebrosamente para uma dimensão incomensurável a capacidade mortífera das “modernas” armas nucleares. E o problema destas armas é mesmo que não se pode “desinventá-las”, conforme reconhecem filósofos de um pacifismo realista como Norberto Bobbio. Releva muito, porém, que tenham sido estabelecidos acordos entre as grandes potências para evitar a proliferação das armas nucleares, de permeio com a promessa das potências nucleares assumidas de não serem as primeiras a utilizar estas armas numa guerra, da qual, ao contrário do que sucedeu entre a América e o Japão em 1945, ninguém pode sair vencedor.

Agora, a grande central nuclear ucraniana de Zaporijia pode transformar-se na próxima superbomba a explodir na Ucrânia, libertando radiação num vasto perímetro por toda a Europa, Rússia incluída (e Moscovo está bem mais perto do que Lisboa).

A guerra é propícia a insanidades pelas partes envolvidas, sendo que, na procura de vantagens militares, a utilização de uma central nuclear como escudo defensivo ou como potencial alvo de ataque (ora por russos, ora por ucranianos) se constitui num desatino de grau superlativo. A destruição de partes sensíveis desta central, de forma intencional ou não, acarretará idênticos e terríveis efeitos letais, potenciadores, ademais, do arrastamento de mais intervenientes diretos para o conflito.

Zaporijia, embora criada para fins civis, se debilitada gravemente na sua segurança pode, dizem os entendidos, libertar um nível de radiação que ridicularizará os indicadores da bomba lançada sobre Hiroxima. Requer, por isso, o respeito de todos aqueles que prezam a vida humana.


Autor: Amadeu J. C. Sousa
DM

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12 agosto 2022