Há pessoas muito bem intencionadas que deploram com veemência os políticos mentirosos e corruptos, que gostariam de ajudar a remover. É, evidentemente, um desejo louvável, que, todavia, se revela pernicioso quando as alternativas por que se optou se revelam mais nefastas. Quando isso sucede – e sucede com alguma frequência –, os bem intencionados vêm lamentar ter defendido políticos mais nocivos do que aqueles que pretendiam combater.
Podiam citar-se abundantes exemplos, mas registe-se apenas um. Rod Dreher, um conhecido cristão dos Estados Unidos da América, editor da revista The American Conservative e autor do bastante citado The Benedict option, afirmou recentemente que mesmo os que, como ele, votaram em Donald Trump “estavam simplesmente cansados da sua personalidade caótica e infantil” [1]. Para Rod Dreher, “Trump nunca dominou a arte de governar e nunca pareceu querer fazê-lo. Nunca teve um programa político. Teve a oportunidade de remodelar radicalmente a política americana, mas tudo o que lhe importou foi promover sua ‘marca’ enquanto celebridade. Os Gregos tinham razão: o carácter molda o destino”.
Quem não tiver o espírito inteiramente atolado em paranóias que permitem acreditar em teorias da conspiração bizarríssimas, já terá podido perceber a falta de estatura ética e política do ainda Presidente dos Estados Unidos da América. Ele usou o cargo para se promover e aos seus negócios, para colocar o Estado ao serviço da família, designadamente da filha e do genro – o que com outros protagonistas teria sido considerado como algo absolutamente intolerável. As acusações que lhe sublinharam os traços de um carácter pouco recomendável também não cessaram. Há poucos meses, o diário britânico The Guardian dava voz a uma ex-modelo acusou Donald Trump de a ter agredido sexualmente por ocasião de um torneio de ténis [2].
No Brasil, Jair Bolsonaro, um pretenso regenerador político, tem-se revelado uma personalidade deplorável.O juiz Sérgio Moro que, aos olhos de muitos, lhe emprestou uma certa caução moral, cedo se afastou do Presidente do Brasil (cedo para o padrão dos apoiantes bolsonaristas, claro). Se a sua extraordinária incompetência política não fosse suficiente para o penalizar, Jair Bolsonaro seria indelevelmente manchado pelas malfeitorias do filho Flávio, um dos políticos mais próximos do Presidente, acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de liderar uma organização criminosa [3]. Por causa de um esquema de corrupção que funcionava no seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa, foi ainda acusado pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. Os pais não são, obviamente, responsáveis pelos crimes dos filhos, mas os Bolsonaro sempre agiram como um clã partidário.
Os Messias políticos são, aliás, idênticos. A chefe da extrema-direita francesa Marine Le Pen, por exemplo, foi condenada pela justiça europeia a reembolsar centenas de milhares de euros por, no exercício da função de deputada no Parlamento Europeu, ter procedido à contratação fictícia de uma assessora parlamentar [4]. A gravidade do processo é de tal monta que a imprensa chegou a admitir que possa impedir a candidatura à Presidência da República francesa em 2022 [5].
É verdade que os interesses próprios fazem com que se considere uma perseguição pessoal, colocada sob a égide de alguma teoria da conspiração, qualquer acção visando punir os mesmíssimos comportamentos que nos outros são vistos como irredimíveis pecados.
Donald Trump, Jair Bolsonaro et alii, incluindo o epígono português, têm em comum um ódio manifesto ao Papa Francisco, que os frustra na tentativa de manipulação religiosa para fins políticos. Ainda que bem sucedidos junto de outras religiões e de alguns clérigos católicos, estes extremistas – incapazes de procurar entendimentos para resolver problemas nacionais e mundiais de enorme complexidade – nunca puderam contar com o Papa Francisco nas suas investidas para acirrar o fanatismo e para agravar as polarizações.
[1] https://lanef.net/2020/12/01/etats-unis-un-empire-en-declin/
[2] https://www.theguardian.com/us-news/2020/sep/17/donald-trump-accused-of-sexual-assault-by-former-model-amy-dorris
[3] https://epoca.globo.com/brasil/rachadinha-lavagem-de-dinheiro-as-acusacoes-contra-flavio-bolsonaro-24665436
[4] https://www.ouest-france.fr/politique/marine-le-pen/la-condamnation-de-marine-le-pen-verser-300-000-eu-au-parlement-europeen-confirmee-5833462
[5] https://www.lejdd.fr/Politique/le-proces-qui-menace-la-candidature-de-marine-le-pen-en-2022-3945492
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
Das boas intenções contra a mentira e a corrupção
DM
10 janeiro 2021