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Dançar sobre o túmulo do Cid

  1. Melhó não, sô!...).Assim falava Tobias, o jovem mas sábio caboclo recém-promovido a capataz da fazenda, numa velha telenovela da Globo, que passou em Portugal. Outro dito, agora queixando-se do mau tempo, era: “tempo miserávi, sô!”. Esta última, é uma interjeição que eu próprio costumo usar, quando não pára de chover.

  2. Antigamente havia mais respeito pelos mortos).Antigamente, as pessoas eram muito mais religiosas. O Cristianismo com que nos educaram (e o bom fundo moral de quase todos nós…) impedia-nos de maltratar ou desrespeitar os cadáveres, de profanar sepulturas. A religião incutia em nós um prudente medo dos mortos, medo dos seus espíritos (seguros até, de que alguns deles nos protegeriam ou recompensariam). Agora, contudo, décadas de ateísmo (ao menos, de laicismo) militante, criaram novas gerações que desconhecem que a força do Espírito é sempre superior à força da Matéria. E que, mesmo que seja apenas uma questão de tempo, a vitória do Espírito, dos exércitos dos que crêem no Deus único e a ele temem mais que a qualquer outra coisa, é sempre certa e garantida. Um triste exemplo disto é a forma incansável com que (nos anos 90 e depois) os americanos desenterraram valas comuns de mortos, na guerra da Bósnia; só para, na ideia deles, “provarem” que os sérbios (os quais só defendiam o que antes lhes pertencia, a Bósnia) é que eram os “maus da fita”. E para se desculparem de ter bombardeado Belgrado por mais de 30 dias; e de terem roubado o histórico Kosovo à mesma Sérbia; acabando mesmo, por prender o heróico presidente Milóshevitch, que morreria na prisão. Antigamente pois, o pior que se ambicionava depois da morte dum chefe militar inimigo era apenas poder dizer (bons tempos!...) “ainda lhe hei-de dançar em cima da sepultura”. Profanações de cadáveres, vandalismo, exumações ou transladações contra a vontade da família ou dos inúmeros apoiantes políticos? Claro que tudo isso seria (e é…) impensável.

  3. Com os pastores castelhanos da transumância). Os primeiros romanos eram agricultores e soldados milicianos no fim de semana. Nós outros por cá, os celtiberos das Hespanhas, éramos pastores e caçadores. Sempre cheios de bom senso, também; e da valentia que fosse necessária. E Viriato foi o melhor de todos nós outros. Os desconhecidos com que alguma vez me cruzei na vida e com quem mais concordei no ideário e na conversa, foram 2 ou 3 pastores transumantes espanhóis, a quem há cerca de 20 anos dei boleia entre dois pontos da serra de Gredos (onde eles tinham os cavalos e os automóveis com que acompanhavam a boiada).

  4. O “romance de la loba parda”).Esta é uma das jóias do folclore castelhano-leonês, repescadas e divulgadas pelo grande contador e folclorista Joaquín Diaz. Uma bela melodia de pastores, que diz assim. “Estando yo en la mi choza/ pintando la mi cayada/ las estrellas altas iban/ y la luna rebajada/ mal barruntan las ovejas/ no paran en la majada/ vi devenir 7 lobos/ por una oscura cañada/ venian echando suertes/a ver a quien le tocaba/le toco a una loba vieja/patituerta, cana y parda/que tenia los colmillos /como puntas de navaja/” Donde vas loba maldita?/donde vas loba malvada?”/” voy por la mejor borrega/que tengas eu la majada”/ Dió 3 vueltas al redil/ y no pudo sacar nada/ y a la otra vuelta que dió/ saco una cordera blanca/” Aqui mis 7 cachorros!/arriba perra guardiana!/ que si me matais la loba/la cena tendreis doblada/ y si no me la matais/ cenareis de mi cayada/ Los perros trás de la loba/ las uñas se esmigajaban/ 7 lieguas la correran/ por vegas y por montañas/ Al subir un alto cerro/ por una sierra muy agria/ le dan unos pechugones/ que en vilo la levantaban/ Al saltar un arroyuelo/ la loba ya va cansada/” tomad perros la borrega/ buena y sana como estaba/” No queremos la borrega/de tu boca alobadada/ que queremos tu pellega^/ pa l pastor una zamarra/ de tu cabeza un zurrón/ para guardar las cucharras/ de tus orejas, pendientes/ y de tus patas, polainas/ las tripas para viduelas/ para que bailen las damas”.

  5. Este é que é o verdadeiro “Cid”).Rodrigo Díaz, de Vivar, perto de Burgos (1043?- 1099) era apenas um homem forte, bravo mas violento, arrogante e indisciplinado. Exilado pelo seu rei, chegou a servir o rei mouro de Saragoça. O seu único feito foi ter conquistado Valência em 1095, que os cristãos logo perderam após a sua morte. Também a imensa audácia de Cortés ou de Pizarro foram bem sucedidas, mas seriam potencialmente genocidas. Pelágio foi o patriarca da Reconquista e da Resistência cristãs, mas o seu pequeno reino das Astúrias tornava-o, para os imperialistas mouros de Tarik e de Mussa, um “Zé-ninguém”. Olivares era cruel e sectário. Reis como Fernando Magno (e tantos outros) não eram os únicos artífices das vitórias de Castela ou Leão. Cid, Cid (i. e., “senhor”, em árabe) só mesmo o “franguito”, o da Corunha. O Destino tinha reservado para ele (e para os seus soldados) aquele papel que o “Romance de la loba parda” reservara aos esforçados ”siete perros”… Apenas colheu (e tolheu…) tempestades, não foi ele que semeou os ventos da violência.

  6. Um colete esverdeado para Sánchez…). Se o 1.º ministro não eleito (socialista) de Espanha gosta de semear a discórdia e a violência, mais valia ir a França ao sábado e participar na ala dos “casseurs” (os que partem montras) das outrossim justificadas manifs. dos ditos “gilets jaunes”. O que ele para já conseguiu, foi que nas eleições da vasta Andaluzia, os filo-franquistas do Vox subissem de 18 mil para 430 mil votos (11%), duma só penada. Por isso, ainda está a tempo de seguir o conselho do tal Tobias: “é melhor não, sô”. Não revolva as sepulturas.


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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8 janeiro 2019