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Da pasquinização do jornalismo

Já lá vai uma dúzia de anos. Estava a ultimar a minha tese de doutoramento numa universidade parisiense. Antes de iniciar cada jornada de trabalho, costumava passar os olhos pelos jornais portugueses e franceses em linha.

Numa manhã, dei-me conta que um diário desportivo nacional replicara uma breve do L’Equipe. O problema residia na tradução. O jornal francês noticiara que determinado jogo de futebol iria decorrer “à guichet fermé”, expressão idiomática usada para significar que os bilhetes de um espectáculo foram todos vendidos.

Já não me recordo do teor exacto, mas o jornalista luso, que visivelmente não dominava muito bem a língua de Molière, escreveu precisamente o contrário: “Jogo da selecção francesa sem ninguém nas bancadas”. Fiz um comentário em linha, informando que o título deturpava totalmente a verdade dos factos. Meia hora depois, o jornal desportivo corrigiu o erro.

O jornalismo está hoje em crise. É, porém, demasiado fácil bater nos jornalistas. As precárias condições de trabalho e as pressões oriundas dos mais diversos lugares são, entre muitos outros factores, cada vez mais insustentáveis.

Meia dúzia de nomes grandes da nossa praça ganha confortavelmente a sua vida, outros vendem-se a quem der mais, mas a maior parte dos profissionais faz o que pode – ainda há trabalhos de muita qualidade – com o (pouco) que tem.

Não deixa, porém, de ser confrangedor seguir os noticiários televisivos e ler alguma imprensa. Para evitar incriminar órgãos de informação que até podem não ser os piores nesta matéria, fica aqui – sem citar a fonte – um florilégio de títulos.

Há, com certeza, exemplos bem mais graves e significativos, mas bastaram cinco minutos ao autor destas linhas para recolher os que se seguem. Com um pouco mais de tempo, haveria matéria para meia dúzia de teses de doutoramento.

Sem comentários: “Exclusivo: Vídeo de cela semelhante à do posto da GNR onde Bruno de Carvalho está detido” (14/11/18). No dia seguinte, o mesmo diário insiste: “Cela de Bruno de Carvalho sem chuveiro cumpre a lei” (15/11/18).

Como incitar o leitor a abrir uma notícia sem qualquer informação relevante: “Família real. Há uma mensagem na foto oficial de aniversário do príncipe Carlos?” (14/11/18);

Como transformar um acidente de viação numa peça “mais apetecível”: “Hospedeira mata mulher portuguesa” (14/11/18);

Como contribuir para a folhetinização da justiça: “O que disse antes de ser detido o condutor do BMW que terá denunciado Bruno e Mustafá” (14/11/2018);

Como induzir o leitor em erro (o governante boliviano tem 51000 euros no banco): “Saldo bancário de Evo Morales triplicou em 12 anos” (03/08/18);

No passado mês de Junho, por alturas do Campeonato do Mundo, um ex-jogador francês, Emmanuel Petit, em declarações à Paddy Power, comparava os dois melhores futebolistas da actualidade.

Um diário nacional replicou a informação, transferindo todavia as declarações para a boca de um ex-futebolista português com o mesmo nome. Na caixa de comentários, não faltou quem chamasse a atenção para o equívoco.

Passados cinco meses, pode ainda ler-se em linha: “Petit: Messi não é um líder como Cristiano Ronaldo” (24/06/18), ao lado da imagem do ex-jogador do Benfica.

Quando alguma imprensa hoje nem sequer se dá ao trabalho de corrigir erros de palmatória, algo vai mal no reino do jornalismo.


Autor: Manuel Antunes da Cunha
DM

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17 novembro 2018