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Cristo: Rei generosíssimo de todo o universo

No último domingo do Ano Litúrgico (neste ano, 25/11/18) a Igreja comemora a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. É o máximo grau de celebração litúrgica – Solenidade – e, se bem que instituída por Pio XI em 1925, com a Encíclica QuasPrimas, Cristo é verdadeiramente e desde sempre aquilo que esta festa indicia, Rei. Além disso, de todo o universo, ou seja, nada escapa à sua soberania real. Porquê?

Enquanto Deus, Cristo é criador de tudo o que existe, com excepção, obviamente, de Si mesmo, que é eterno. Ou seja, tudo o que existe, para além do próprio Deus, não existe por si mesmo. Foi criado: tudo o que ele é, todas as suas características, natureza, possibilidades, qualidades, fim da sua própria existência, estão dependentes do acto criador. Nenhuma criatura existe por acaso, ou porque decidiu existir. Como observava um pensador cristão do século passado, Jacques Leclerc, ser criatura é ter tudo emprestado. Por quem? Pelo seu criador, desde a sua vinda à existência às competências que a sua natureza lhe permite realizar. Nesta ordem de ideias, a soberania de Cristo é total e absoluta. No entanto, o autor de todas as criaturas, ao trazê-las à existência, deu-lhes determinadas características. Não são todas iguais. Por isso, não têm todas as mesmas capacidades e também as mesmas responsabilidades.

O ser humano é criatura de Deus. Como se diz na Bíblia, “Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus” (Gén. 1, 27). Ora, se existe no homem alguma semelhança com Deus – de Quem espelha a sua imagem –, e que o distingue de todas as outras criaturas terrenas, é o facto de se poder determinar com voluntariedade pessoal a realizar aquilo que o seu dever lhe insinua. Como criatura, a sua liberdade é um dom que Deus como que instalou na sua natureza, para realizar actos meritórios. Mas atenção: pode ou não realizá-los. Realiza-os se quer, ou rejeita-os se não quer. E isto em sentido amplíssimo.

O homem tem capacidade para rejeitar aquilo que Deus lhe propõe, sofrendo, porém, as consequências, que são sempre nefastas para si. E isto porque Deus, que é perfeito em Si mesmo: nunca propõe nada ao homem que lhe seja impossível de concretizar (Deus seria injusto), ou inadequado ao seu fim último e às circunstâncias que, num momento determinado da sua existência, deve e pode realizar (Deus, que é omnisciente, só convida o homem a fazer o que é acessível às suas possibilidades e visa sempre o seu bem supremo). Lembremos S. Paulo que nos ensina que ninguém é tentado acima das suas próprias forças (! Cor. 10,13).

Também a Bíblia nos relata que o homem desobedeceu a Deus, tentado pelo demónio, cometendo o que se chama habitualmente o “pecado original”. No fundo, foi incitado por uma criatura angélica, que se tornou pérfida e sem escrúpulos por vontade e consciência próprias, a seguir um caminho que Deus, no seu amor misericordioso e com a sua bondade ilimitada, lhe tinha aconselhado a não percorrer, sob pena de perder os fins a que o seu criador o tinha destinado: o reino dos Céus, a ventura completa e inimaginável para a mente humana, pois supera tudo o que ela é capaz de supor, limitada pela sua condição criatural.

Ficou, assim, o homem sem possibilidade de atingir a plenitude da felicidade para que foi criado por Deus. O Céu fechou-se, tornando-se inacessível. Deus, contudo, que é infinitamente misericordioso e ama o homem dum modo insuspeitável, como que não descansou enquanto não repôs, de novo, a possibilidade do ser humano entrar no Reino dos Céus. Foi o que Cristo, Rei do Universo, assumindo a nossa natureza no seio da Virgem Maria pelo poder do Espírito Santo, como se diz no Credo, veio fazer à Terra, realizando a Redenção.

Isto é, voltou a dar ao homem a sua Graça – condição indispensável para se entrar no Céu, que é sempre um dom divino –,. e tornou-o de novo filho de Deus, certamente por adopção, para que esse mesmo dom se tornasse mais familiar e, portanto, mais acessível `à nossa compreensão e mais estimado pela nossa afectividade – uma espécie de herança que um pai reserva para os seus filhos. Cristo é, assim, Rei do universo, mas sobretudo, um Rei generosíssimo.

Apesar do comportamento humano não ter sido adequado, perdoando “até setenta vezes sete”, como ensinou a S. Pedro, voltou a abrir-nos as portas do seu Reino ao homem com as características essenciais de absoluta felicidade que o seu Amor por nós havia determinado.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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24 novembro 2018