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Crianças santas, sempre crianças

Não reduzamos, assim, a santidade para os adultos, ou para os que já atingiram uma idade em que o uso da razão os torna capazes de assumir plenamente as exigências que o Senhor lhes pede. Fátima, pelo contrário, sobretudo através de Francisco e Jacinta, que morreram por doença em plena infância, comprova-nos que a santidade é possível em todas as idades que um ser humano experimenta. 

Não queremos, com isto, pôr de lado, Lúcia, a vidente mais velha de Fátima, que experimentou o chamamento de Deus à santidade em criança e que aí começou o seu longo caminho até que o Senhor e a Virgem Santíssima, quando já passava dos 90 anos, a chamaram para a vida eterna no Carmelo de Coimbra. Lembremos, por exemplo, que teve de oferecer a Deus o sacrifício de aguentar com “umas poucas de solhas” maternas – a expressão é da senhora Maria Rosa, sua mãe – porque pensava que ela estava a mentir sobre a observação dum vizinho, que a acusava de andar com dinheiro “que lhe deram uns senhores”, por causa “daquilo da Cova da Iria”, que dava “bom rendimento”. Perdeu a cabeça e não lhe poupou o tratamento que uma mãe, bem intencionada, tem para com uma filha criança que falta à verdade em assunto tão relevante.

A pobre Jacinta, quando se encontrava na cadeia de Ourém com o irmão, Francisco, e a prima Lúcia, ao terminar de rezar o terço, juntamente com os presos da cela para onde os mandaram, pôs-se a chorar. Lúcia pergunta-lhe: – “Jacinta, então tu não queres oferecer este sacrifício a Nosso Senhor?” “Quero – disse a pequenita – mas lembro-me da minha mãe e choro sem querer”. É uma criança que fala e que, no entanto, oferece aquela situação como mortificação, embora as lágrimas de saudade pela ausência da sua progenitora, lhe encham o rosto. É a reacção normal duma rapariguinha com tão poucos anos. 

De Francisco mencionemos que pouco antes de morrer, pediu à prima e à Jacinta que se lembrassem de algum pecado que ele tivesse cometido, pois queria confessar-se. A Lúcia diz-lhe que desobedecera algumas vezes a sua mãe, escapando de casa para ir ter com ela e esconder-se. Reconhece a sua falta. Mas quando Jacinta lhe recorda de um vintém que tirara ao pai para comprar um “realejo ao José Marto” e de ter participado numa “luta” à pedrada entre os rapazes da sua aldeia, Aljustrel, e os de Boleiros, responde que já os tinha confessado. É uma criança, que como tal, testemunha coisas menos correctas de que lhe acusa a consciência. Não são realidades mirabolantes ou imaginárias, mas as do seu mundo infantil, real e concreto.

Gratos devemos estar aos pastorinhos por esta lição: a santidade é acessível a todos os homens, incluindo na sua infância. Por esta razão, a educação da fé e do amor a Deus não pode descurar este período da nossa vida.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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21 maio 2017