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Conto de fadas

Ao longo de anos e anos de história, o desporto foi capaz de criar figuras incontornáveis que se demarcam dos demais pela diferença, pela capacidade, pelo carisma, pelo percurso desportivo, pelo sucesso.

Existe um templo, só meu, onde, ao longo de vários anos, coleciono os meus ídolos, os meus cromos, as lendas, os nomes das figuras mais marcantes, de histórias relevantes, daqueles episódios que me enchem de esperança, de crença neste fenómeno, chamado Desporto. Um conjunto de seres, que sendo humanos, constroem os pilares de um local de acesso exclusivo a super-heróis.

Um deles, Roger Federer, o “canivete suíço” do ténis, passou a figurar como uma lenda (no meu Olimpo). Tão difícil como elencar as virtudes pessoais de Roger Federer é descrever o seu repertório motor e tático-técnico. Aos 36 anos, após mais de uma semana intensa, após cinco partidas, ao fim de quase quatro horas de encontro, venceu, na final, um jovem promissor, de forma categórica, o croata, Marin Cilic.

Domingo de manhã, bem cedo, dei por mim a ver ténis, entusiasmado, fascinado com todas as soluções técnicas que Federer aplicava, soluções distintas (abertas como um canivete suíço), a disfrutar da sua perseverança em cada ponto, da estratégia, do entusiasmo, do gráfico emocional que ia apresentando, e no fim, aquela vitória, sentida, marcante.

A 6.ª vitória em Melbourne, a 20.ª conquista de Grand Slams. Atento ao ambiente envolvente, admirava a astúcia, a alegria de jogar e fiquei impressionado com o momento épico, inesquecível. Parece que, à semelhança da sua carreira, ganha um novo começo, que se reinventa. A entrega dos prémios. O respeito. As lágrimas a escorrer pelo rosto, o sorriso estampado, emoção pura, fizeram-me sentir este grande momento de uma forma muito especial. O discurso.

Um momento incrível de reconhecimento do valor da equipa que o acompanha. Uma lição para tanta e tanta gente que nas modalidades coletivas procuram, assoberbados de egoísmo, no momento da vitória, o mérito pessoal.

Apesar de ser uma modalidade individual, a sua equipa está presente e é marcadamente decisiva para a vitória. Discurso emocionado, de lágrimas sentidas.

Na adolescência, Federer, era rebelde, revoltado. Temperamento difícil. Hoje, com outra conduta, parece que a idade está avançada, mas não se nota, essencialmente porque se nota amor pelo ténis. Parece que agora aprecia mais uma jogada em que aplica uma solução “tirada da cartola”. Suave. Parece que agora aprecia mais as vitórias, as mesmas que antes seriam, eventualmente, mais fáceis.

Poderia ter sido mais simples abandonar a carreira, pois teve algumas “oportunidades” para isso. Provavelmente o adeus à modalidade enquanto estaria no auge seria a forma mais aconselhada para, uma estrela deste nível, sair de cena. Sairia em alta e teria uma vida tranquila nos Alpes.

Mas, Federer, arriscou, ganhou novas vidas, nova alma. Alimentado pelo amor ao ténis, pelas vitórias, pelo apoio incondicional dos seus fãs. Parece deslizar suavemente pelo court. Continua, como proferiu no discurso, a “viver um conto de fadas”.

Os desafios para esta época ainda não acabaram e eventualmente para a sua carreira também não. Mas tenho uma certeza: Roger Federer entrou no meu exigente e restrito “Olimpo”. Incrível.


Autor: Carlos Dias
DM

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2 fevereiro 2018