1. Se há assunto cada vez mais difícil de prever num acto eleitoral é o resultado da votação (que o digam as sondagens…), o que significa que tem aumentado o nível de irracionalidade nos processos de decisão eleitoral, tem diminuído a qualidade da relação entre eleitores e eleitos, tem enfraquecido a exigência de fidelidade das promessas eleitorais e a confiança política da sociedade nos partidos foi definhando. Isto ajuda a compreender o aumento de distanciamento do povo em relação aos partidos tradicionais e o aparecimento de novos partidos.
Quando digo quanto menos racionais forem as escolhas mais incertos são os resultados eleitorais, não estou a insinuar que a acção política deva ser insensível, porque o sentimento faz parte da vida, mas que é a objectividade que se deve adaptar às pessoas e não o sentimento em vez da objectividade.
Agora que as eleições se começam a aproximar e começam a aparecer as sondagens para mostrar as tendências das futuras escolhas do povo, vale a pena reflectir nisto para ver se é possível introduzir mais racionalidade e fidelidade nos actos eleitorais, dito por outras palavras, mais responsabilidade democrática entre eleitores e eleitos. É isso que está em causa quando se fala de racionalidade ou falta dela no acto eleitoral. Vamos sumariamente falar do campo consciente e do campo influenciado por outras motivações no acto eleitoral, ou seja:
1.1.das escolhas políticas objectivas e conscientes, o que seria o ideal da democracia, isto é, escolhas políticas dos eleitores feitas de acordo com a sua consciência e resultando da análise objectiva dos problemas sociais;
1.2.das escolhas políticas mais influenciadas por outras motivações, menos objectivas e mais abstencionistas,mais influenciadas por motivos primários do que por avaliação racional e objectiva dos problemas sociais e das soluções mais necessárias, agindo mais ao sabor dos acontecimentos e tornando-se, deste modo, presas fáceis dos que os manipulam com utópicas ideologias e promessas eleitoralistas.
Vários factores concorrem para esta falta de objectividade política, a começar pelo tipo de personalidade do eleitor, pela sua preparação política, pelo seu grau de influenciabilidade, pela desmotivação decorrente do descrédito político, pela tendência para desistir, abstendo-se… sendo certo que o abstencionismo nasce quando a democracia diminui e cresce à medida que ela está em causa.
2.Escolhas políticas objectivas e conscientes. Como nem todos podem simultaneamente governar, tem de haver alguns que representem o povo nessa função. Teoricamente, os mais capazes, embora isso nem sempre aconteça: por regra, os mais audazes a espreitar uma carreira de vida por esse atalho. Sejam os mais competentes ou os mais audazes, ademocracia representativaexige uma relação de transparência entre eleitores e eleitos, de tal modo que os eleitos prestem rigorosamente contas do que fizeram em nome dos seus eleitores.
Por outro lado, para que os eleitores possam reclamar dos eleitos é preciso que antes saibam o que querem. Para isso, devem ter um conhecimento mínimo e objectivo da situação política e social e das soluções que se precisa para que, depois, o possam exigir aos seus eleitos. Da parte dos eleitos, deve haver transparência de propostas e fidelidade às promessas feitas. Isto implica uma maior cultura política, eleitores mais conscientes e instruídos e partidos mais interessados em dialogar com os eleitores, sabendo que estão a desempenhar uma função de serviçoe não a cuidar dos seus interesses com o dinheiro dos eleitores contribuintes.
Para se viver em democracia é necessário haver uma cultura política mínima: consciência das necessidades e problemas sociais para depois saber reivindicar e exigir, sejam eles problemas de ordem económica, profissional, salarial, direitos sociais, política de saúde, de educação, de segurança social, da justiça de regras públicas de fiscalidade, do respeito pela aplicação do dinheiro dos contribuintes, da organização política das cidades, do controle dos preços dos bens essenciais, das suas convicções éticas e religiosas e de como esperam que os eleitos os sejam capazes de compreender e resolver, dentro das ideologias políticas que pensam ser as mais adequadas para aplicar à situação. Na medida em que o eleitor souber quais as suas necessidades, também os partidos serão obrigados a fazer propostas objectivas que melhor correspondam a essas necessidades. (Continua).
Autor: M. Ribeiro Fernandes