1. Nem sempre os comportamentos que observamos correspondem à realidade interior do sujeito; não raro, tendem a mostrar mais aquilo que gostava que fosse do que aquilo que realmente é. São os chamados comportamentos de compensação.
Exprimem, de forma inconsciente, a necessidade de se compensarem por aquilo que desejavam ter sido e não são. É através deles que se conhece melhor a realidade e a dinâmica interior da pessoa.
Hoje em dia, cada vez precisamos mais de saber ler as motivações dos comportamentos das pessoas para melhor sabermos lidar com elas. Karen Horney, médica psiquiatra, freudiana de formação, nascida em Hamburgo, Alemanha, e emigrada para os Estados Unidos, deu um contributo importante nesse sentido.
Nos fins do século XIX, começou a esboçar-se, sobretudo nos USA, uma reacção ao cunho instintivista e mecanicista da psicanálise, sobretudo no que respeita à formação da personalidade.
Esta corrente criticava a teoria freudiana por estar prisioneira de um mecanicismo biológico e instintivista que tendia a ignorar o papel da influência cultural do meio, dos costumes e das instituições na formação da personalidade. Karen Horney e Sullivan são os nomes mais significativos desta corrente.
Como mulher, Horney sublinhou a influência do meio familiar na formação da personalidade e discordou de alguns dos pontos mais emblemáticos da teoria freudiana, como por exemplo, o denominado Complexo de Édipo.
Para ela, não faz sentido que a inveja do pénis seja tida como determinante da psicologia feminina. No Complexo de Édipo não se trata de um conflito de natureza agressiva e sexual entre a criança e os pais, mas de uma ansiedade decorrente de distúrbios básicos sofridos na sua relação com eles, por causa de sentimentos de rejeição, de superprotecção ou por reacção a castigos que sofreu.
Discordou também do carácter inato da agressividade, como postulava Freud: para ela, a agressividade é apenas um meio de adaptação social pelo qual o homem procura defender a sua segurança.
Tal como discordou do significado atribuído ao narcisismo, afirmando que não é um amor-próprio exagerado, como ainda hoje se continua a dizer na cultura geral, mas uma necessidade de compensação, de se sobrevalorizar face aos sentimentos de insegurança do sujeito que lhe vêm do passado.
2. Assim, o conceito de ansiedade básica passou a desempenhar um papel de charneira na sua teoria da personalidade para ajudar a compreender muitos dos distúrbios de comportamento cuja origem se reporta, a maior parte das vezes, aos primeiros tempos de criança, ponto em que manteve a concordância com Freud e que, hoje em dia, está confirmada.
Se a criança se sente ansiosa e desprotegida perante um mundo que ela desconhece e representa como hostil, isso leva-a a sentir uma ansiedade básica que, se não for ajudada a superar, pode deixar marcas nos seus mecanismos de acção da personalidade e induzir procura de compensação inadequada em relação aos estímulos em presença.
Todos nós podemos observar que a criança ansiosa e insegura procura desenvolver estratégias para lutar contra os sentimentos de desamparo e de isolamento. E que essas estratégias se podem ir transformando, por força da repetição e do tempo que subsistem, em conduta habitual sob a forma de impulso, de necessidade da personalidade.
3. É a essas estratégias que ela chamou de necessidades neuróticas de compensação. Designou-as de neuróticas porque são irracionais, são formas de defesa inconscientes de compensação da personalidade.
Se o sujeito, sozinho ou ajudado, não for capaz de tomar consciência delas, se as não consciencializar e não reorientar o seu modo de estar, estas necessidades de compensação tendem a tornar-se padrões de comportamento, isto é, hábitos de estar na vida. Não se preocupe o leitor com o nome de neurótico, que é um conceito que também precisa de ser revisto… De neurótico e de louco todos temos um pouco.
A neurose está apenas no grau de inadaptação e de procura de compensação face a uma necessidade de base não resolvida.
As dez necessidades neuróticas de comportamentos de compensação que ela apresenta são: necessidade de afecto e aprovação / necessidade de um parceiro de quem possam depender / necessidade de restringir o número de pessoas com quem se dá / necessidade de poder / necessidade de explorar os outros / necessidade de prestígio / necessidade de admissão pessoal / ambição de realização pessoal / necessidade de auto-suficiência e independência /necessidade de perfeição.
Vamos falar delas no próximo artigo.
(Nota: o autor não escreve de acordo com o chamado Acordo Ortográfico).
Autor: M. Ribeiro Fernandes