1. O compadrio e o nepotismo continuam a impor as suas leis. E é pena. Criam situações de injustiça, em muitos casos lesivas do bem comum.
A uma pessoa que exerce determinado cargo deveria ser legítimo perguntar que habilitações tem. Na prática, isso pouco ou nada adianta. Esclarecedor é saber que grau de parentesco ou de amizade tem com quem possui o poder de decidir.
O ideal seria que, para exercer determinados cargos, se escolhessem os melhores. Os mais competentes, os mais honestos, os mais conscientes, os mais cumpridores. Infelizmente nem sempre é assim. O importante é mover uma boa cunha, ter determinado apelido, ser amigo ou familiar de um colega de partido, etc. etc.
É verdade que às vezes se fala em concursos. Concursos que, em alguns casos, são para inglês ver. Concursos que são uma forma de, camufladamente, legalizar situações que se criaram ou decisões que se tomaram.
Depois, as coisas andam como andam.
2. Quando se detetam erros e se apuram responsabilidades, ninguém assume a autoria dos atos. A responsabilidade ou é dos outros ou do sistema. Das incompetências que o nepotismo e o compadrio promoveram, nunca é. E se é demasiado evidente que a responsabilidade é do tal indivíduo que se admitiu por linhas travessas, quem está por cima apressa-se a estender o manto protetor da compreensão e a pretender justificar o injustificável.
Os erros não podem nunca ser atribuídos aos filhos de papá ou aos que defendem a mesma ideologia. Cada um encarrega-se de proteger os próprios afilhados. E estes sentem-se à vontade para fazerem o que lhes apetece ou o que a sua incompetência lhes recomenda.
3. O nepotismo e o compadrio são uma injustiça, repito. Se determinado indivíduo é filho ou afilhado de Fulano os que foram preteridos são filhos de Deus, o que deve valer muito mais do que isso. Mas como Deus foi posto de lado e a consciência foi vendida em saldo, surge o que se lê num poema de Guerra Junqueiro, que cito de memória: «Tripudiai, sandeus, que não existe forca nem existe Deus». Vale tudo.
4. As doenças do compadrio e do nepotismo estão mais espalhadas do que se pode julgar. Atrevo-me a dizer que, de uma forma ou de outra, surgem nas mais diversas comunidades. O que conta deveria ser as qualidades das pessoas, as suas habilitações, as suas competências. Deveria ser mas em muitos casos não é. Os filhos de papá ou sobrinhos de tio beneficiam de tratamento vip. Na profissão, nos negócios, onde quer que se encontrem. Para eles há emprego. Para os outros, fica o trabalho.
Quem não tiver cartão ou não tiver alguém de cartola a apadrinhá-lo, que se desiluda. Sobra para si os que os meninos bonitos não querem.
Fala-se muito em igualdade. Mas a igualdade nem sequer se verifica no nascer e no morrer. É verdade que todos nascem e todos morrem, mas as circunstâncias são diferentes. O acolhimento e a despedida divergem, às vezes muito.
5. A igualdade é uma palavra que continua a ser badalada e apregoada. A igualdade, porém, é um mito. E é-o porque há homens que assim o querem ou permitem. Porque quem detém o poder não só o não impede como até, às vezes, o favorece.
É imperioso dizer haver desigualdades que podem e devem ser evitadas, a começar pelo que chamam liberdades, direitos e garantias.
Há pessoas vítimas de injustiças e de desatenções. Nem todas são respeitadas na sua dignidade e nos seus direitos.
Sei que me vou repetir, mas faço-o propositadamente: há casos em que é mais importante ser filho de papá ou sobrinho de tio do que filho de Deus.
Quando chegará o dia em que o valor das pessoas deixa de estar no distintivo que exibem na lapela ou no apelido que lhes deram, para residir naquilo que são?
Autor: Silva Araújo