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COBARDIAS

O problema é velho e com tantas soluções que, no final das contas, o tornam insolúvel: a forma condiciona o conteúdo ou o conteúdo condiciona a forma? Exemplifiquemos. Se eu, indiscreta e incivilizadamente, colar o ouvido a uma porta fechada para ouvir a conversa que, para lá dela, se passa entre duas pessoas – é claro e insofismável que acedi, de modo totalmente ilegítimo ao conteúdo da conversa. Se eu, depois, divulgar esse conteúdo, será que a forma como o apreendi (ilegítima se não mesmo imoral) invalida ou apaga o afirmado ou a sua eventual gravidade? É claro que não! A impropriedade da forma não afecta a qualidade do conteúdo. Se, nessa hipotética conversa intramuros, supondo-se resguardado de ouvidos indiscretos, o senhor A disser do senhor B que ele é um cobarde, deve assumir a responsabilidade do que disse. Não pode esconder-se atrás da ilegitimidade da forma como a sua afirmação foi divulgada pelo tal ouvido atrás da porta. Porque o que se confidencia à porta fechada, supondo-se ao abrigo de ouvidos indiscretos, é aquilo que, no íntimo se pensa. E querer mantê-lo no segredo dos próximos ou da própria consciência, sem coragem para o afirmar em público – isso tem um nome. Muito feio. E não se argumente com a privacidade ou o direito a ela. Porque privacidade não significa (nem justifica) duplicidade de valores: ora públicos, ora privados. O tal senhor B da conversa imaginária seria, de facto, cobarde. Mas o senhor A, que assim o considerava só de portas adentro e se recusava a afirmá-lo de portas abertas…o que seria? A cobardia é só uma. As formas é que variam. Mas não a eliminam. Nota: por decisão do autor este texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco
DM

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29 agosto 2020