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Cidades verdes e generosas

A vida nas cidades modernas, mormente nas médias e grandes metrópoles, cada vez é mais difícil e sem qualidade; e as pessoas profusamente afluem aos grandes aglomerados urbanos, despovoando o interior, em busca de melhores meios de subsistência e não curando de saber que formas de vida as esperam e que luta indómita têm diariamente de travar para sobreviverem.

As grandes cidades de hoje, descaraterizadas, incaraterísticas e desumanizadas, onde a privacidade, a tranquilidade, o conforto e a segurança apenas existem na imaginação de pseudo-urbanistas e pseudo-ambientalistas que as concebem, tornando-se na prática autênticas mistificações; e, consequentemente, aqueles que aguentam esta inevitável elefantíase urbanística (crescimento mas não desenvolvimento), não passam de vítimas inocentes da incúria, ganância e especulação dos bandos de patos bravos que as constroem.

Não é difícil fazer crescer uma cidade; o verdadeiramente difícil é fazê-la desenvolver, porque crescimento e desenvolvimento não são sinónimos e, até, se digladiam, uma vez que aquele tem mais a ver com o corpo, o material (prédios, ruas, amplas avenidas, ocupação de espaços...) e este, claramente, mais se estriba e preocupa com o espírito, o imaterial (solidariedade, conforto, segurança, humanismo...).

Então, as zonas verdes, os espaços de convívio e lazer, o património e os equipamentos sociais e culturais são imprescindíveis à vida dos habitantes que têm, por condição e falta de meios, de viver encaixotados, enclausurados em prédios de muitos andares e pouco conforto e oxigénio; e, obviamente, sujeitos à vivência de uma cultura do cimento e do alcatrão, de engarrafamentos, de horas de ponta caóticas, de corridas para os empregos, de assaltos à mão armada, de aridez de espaços e paisagens, de indiferença relacional e agressividade mesmo entre vizinhos e comunidades de proximidade, de bairros incaraterísticos e de lata, onde abundam a miséria, a insegurança e o banditismo.

Por isso, mais necessário e importante do que fazer crescer uma cidade é fazê-la desenvolver; pois, mais salutar e útil do que locar apartamentos exíguos ou vender arranha-céus aos cidadãos ou facultar-lhes trânsito caótico, centros comerciais e hipermercados, é oferecer-lhes grandes espaços verdes, privacidade, segurança, cultura, humanismo, ou seja, pôr à frente dos interesses materiais os interesses espirituais, onde a solidariedade, a cooperação, o apoio e a fraternidade entre todos seja uma realidade.

A isto chama-se fazer cidades à medida dos homens e não os homens à medida das cidades; e sobretudo, dar-lhes uma dimensão humanista, inclusiva, educadora e humana que não está seguramente na mente, nem na vontade e na cultura da maioria dos nossos autarcas.

Agora, é consolador constatar que emergem já e crescem nas nossas cidades movimentos ecológicos e ambientalistas em defesa de melhor qualidade de vida e de valores humanitários; e esta dinâmica insere-se na luta em prol de princípios de maior igualdade, fraternidade e liberdade contra as tenazes do egoísmo, do individualismo, do hedonismo e do consumismo, tão comuns nos dias de hoje.

Ora, esta dinâmica assenta nos valores, critérios e atitudes de defesa de cidades mais limpas, arrumadas, confortáveis e humanizadas contra os poluidores, quer de espaços e paisagens, quer de culturas e mentes; e esta dinâmica consubstancia uma mudança radical de comportamentos dos próprios cidadãos que apostam numa cidade mais verde, limpa, segura, confortável e generosa.

E porque já venho dos tempos em que a iluminação caseira, sobretudo na maioria das nossas aldeias se fazia recorrendo ao petróleo ou às velas de estearina, penso que o futuro dos nossos filhos e netos tem forçosamente de passar por uma revolução urgente de meios, mentalidades e vontades; e, o que não me parece difícil, dada a evolução que se desenha já nas formas de vida e de relacionamento.

Deste modo, tudo terá de começar pelo abandono dos carros a gasolina e a gasóleo, pelo encerramento das chaminés que debitam toneladas de poluição para os espaços e pela adesão consentida aos carros elétricos e às energias alternativas; e, depois, os ciclistas e peões circularão em vias desenhadas à sua medida e necessidade; o urbanismo será mais de reconstrução do que de construção, os edifícios terão de ser mais sustentáveis, não poluentes, produtores de energia e equipados de inteligência artificial; só, assim, o espaço e o tempo dos nossos avós regressarão com uma vida melhor, mais aproveitada e aproveitável.

Então, a palavra de ordem será: fim à poluição e às agressões à natureza e avante à adesão ao isolamento térmico e acústico dos edifícios construídos com elementos não poluentes, a menos parques de estacionamento e mais espaços verdes de lazer, a cidades sem carros e com transportes públicos elétricos e de níveis de excelência.

A estas cidades do futuro chamaremos cidades verdes e generosas onde será bom, respirar, conviver e, obviamente, viver.

Então, até de hoje a oito


Autor: Dinis Salgado
DM

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14 setembro 2022