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Centro histórico de Braga e gestão arqueológica da reabilitação urbana

Numa cidade bimilenar, como a de Braga, de fundação romana, mas que ao longo dos tempos representou um importante centro político, jurídico, militar, administrativo, comercial e cultural, chegando a ser a primeira cidade da velha província da Galécia, a capital da Suévia e sede da Igreja metropolita das Espanhas, é perfeitamente natural que os vestígios históricos da ocupação humana revelem uma singular heterogeneidade. As mais recentes escavações arqueológicas realizadas em Braga no último ano, num edifício da Arcada (onde, durante mais de 50 anos, esteve instalada a sapataria Arcádia), em pleno centro histórico, permitiram pôr a descoberto restos da muralha medieval, também conhecida por “cerca manuelina”, os alicerces de um dos torreões do antigo castelo da cidade, datados do século XIX, e duas sepulturas tardo-romanas, dos séculos V e VI, contendo duas pulseiras de pasta de vidro. Entretanto, também as obras de remodelação levadas a cabo noutra parte do mesmo edifício, para instalação de um novo restaurante italiano, tiveram o condão de revelar o pano de uma parede pertencente ao antigo castelo de Braga, demolido entre 1905 e 1906. Estes achados, somados ao de outros importantes monumentos que vieram sendo recuperados ao longo do último meio século, revelam a extraordinária riqueza histórica desta cidade e a necessidade de a estudar, recuperar, proteger, valorizar e divulgar. Para este efeito, a cidade conta com uma activa e importante instituição de arqueologia – a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (UAUM) –, criada em 1977 e com o Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga (CMB), entidades que, apesar da sua enorme valia, carecem de investimento em meios materiais e humanos para poderem dar resposta às constantes solicitações que a gestão arquitectónica e arqueológica do núcleo histórico vem reclamando. Nos finais da década de oitenta, a UAUM propôs à CMB um projecto para efectuar o levantamento arqueológico do concelho de Braga, projecto que esta aprovou e financiou. Numa primeira fase, procedeu-se à “inventariação e cartografia dos sítios e achados arqueológicos e definição de zonas com potencial arqueológico que foram sendo referenciados em diversas publicações”. Numa segunda fase, ainda em curso, visou-se a “prospecção de sítios arqueológicos” e a “análise de fotografias aéreas e de cartografia temática, a toponímia e prospecções de campo”. Tendo em conta que estão em curso por toda a zona do centro histórico de Braga obras de recuperação de inúmeros edifícios, seja para habitação, seja para comércio e serviços, impõe-se que se intensifiquem esforços, em estreita cooperação das referenciadas instituições públicas com os proprietários e promotores imobiliários, no sentido de uma gestão cada vez mais cuidada e profissionalizada do património arqueológico e arquitectónico. Tendo acordado um pouco mais tarde do que outras cidades para a importância desta temática, espera-se que, dentro em breve, o projecto de “Salvamento da Bracara Augusta” de que, em 1976, a UAUM assumiu a direcção científica e técnica possa ser concretizado em pleno e apresentado como exemplo de sucesso da colaboração entre a Universidade, Município e privados.
Autor: António Brochado Pedras
DM

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22 fevereiro 2019