twitter

Cenas familiares

Era uma família de uma mão cheia de irmãos, distanciados entre si por vários anos – uns mais próximos, outros mais afastados –, porque a gestação não foi de todo fácil para aquela mãe generosa, que se dispôs a aceitar os filhos que Deus lhe desse. Certamente que o timbre cristão dos progenitores deu aos filhos uma visão da vida em que Deus ocupava o centro de tudo. Cada um no seu tempo certo, participou na catequese paroquial e aí fez a preparação para a recepção da Primeira Comunhão e, à medida que iam crescendo, também do Crisma. A prática dominical da Santa Missa era um costume e uma devoção que incutiram nos seus descendentes de um modo natural. Todos os domingos participava na Eucaristia a família completa, ou melhor, à medida que os filhos iam crescendo, aqueles que atingiam a idade em que a participação no Sacrifício de Cristo constitui um mandamento da Santa Igreja.

Claro que nem sempre podia ser assim. Isto é, havia domingos em que os pais não conseguiam participar, ele e ela, na mesma Missa. E não apenas nos períodos em que a mãe, por razões de parto, ou de problemas de saúde de algum dos filhos, obrigava à permanência de um dos dois em casa, enquanto o outro, com vários dos seus descentes, lá se deslocava à igreja para participar no Sacrifício Eucarístico. Claro que o que ficava no seu lar pelas razões referidas, ia a outra Missa, acompanhado por algum filho, depois da chegada do seu cônjuge com o resto da família.

Todos os dias, pai e mãe rezavam o Terço em conjunto, convidando os que quisessem a acompanhá-los. Habitualmente, não havia excepções de ausências, porque todos pensavam com simplicidade que a reza desta oração mariana fazia parte da sua vida, tanto como as refeições ou outros actos familiares.

No entanto, à medida que a adolescência começava a tocar os mais velhos, os pais notavam que a obediência se tornava mais difícil, não tanto por não cumprirem os seus encargos de vida em comum - pôr a mesa, fazer a cama, etc. -, mas por manifestarem uma certa dificuldade em aceitar algum conselho mais exigente. Habitualmente, a mãe, com calma e paciência, falava com estes filhos duma forma mais serena. O pai, cansado da azáfama laboral, quando regressava a casa, fazia os possíveis por não se irritar com a desordem e alguma barafunda que a miudagem não conseguia esconder: havia um brinquedo no chão, uma camisola a descair no assento de uma cadeira, um resto de um biscoito que o mais pequenito deixara cair no corredor, etc.

Num dia, perto do Natal, chegou um pouco mais tarde. Cumprimentou a esposa e, porque tinha de tratar de um assunto comum dos mais velhos, que há pouco festejara os 16 anos, bateu na porta do quarto onde ele e mais dois irmãos dormiam. Ninguém respondeu. Repetiu o toque, mas o silêncio continuou. Abriu a porta. O rapaz dormia, a sono solto, sobre a sua cama. Chamou-o, aproximando-se para o saudar. Ele acordou, estremunhado e, imediatamente, procurou ocultar uma revista que tinha a seu lado. O seu tema era inequívoco: pornografia...

Com calma, mas tristonho, o pai, que percebera o gesto precipitado do filho ao tentar esconder a publicação, comentou: “Para te ser sincero, já lá vão mais de trinta anos, o teu avô paterno, encontrou-me a mim em situação semelhante à tua. Tirou-me a revista das mãos e, como era nortenho, gritou-me: “Vou mandar esta ... (disse uma palavra lusitana começada por M) para a lareira, que está acesa!” E saiu do quarto sem me dizer nada. Durante uma semana proibiu-me de falar com ele ou de exigir alguma coisa. Certamente que lhe pedi desculpa...Eu apenas te aconselho: Deita a revista na lareira, que, como sabes, neste mês do Natal, está acesa... É o sítio certo para ela”.

O rapaz, muito envergonhado, fez o que o pai lhe recomendara daí a algum tempo. Ficou consternado e pouco comunicativo. Assim se manteve durante alguns dias. Um dos companheiros do quarto de dormir, com os seus oito anos, perguntou-lhe: “Estás doente?” Nada respondeu, apenas se afastou e não quis conversa. Mas o irmão seguiu-o e voltou a interrogá-lo. Este, para o afastar, observou: “És muito pequeno para perceber estas coisas...” “Quais?”, inquiriu o mais novo. “Julgo que Deus me devia ter perguntado, antes de eu nascer, se eu queria viver. Não o fez e sinto-me revoltado. Percebeste?” O irmãozito olhou-o com espanto. “Eu cá não me preocupo. Deus, ensinou-me a mãe, faz tudo bem e só nos quer fazer felizes. Se ele me tivesse perguntado isso, eu podia-me enganar e dizer-lhe que não...Assim, como foi Ele a escolher, sinto-me muito contente...”

O mais velho sorriu, troçando da singeleza daquele raciocínio. Afastou-se, sem nada dizer, mas ficou a matutar na argumentação do pequenito.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

DM

27 agosto 2022