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Campeonatos Virtuais!

Começo esta crónica relembrando uma famosa frase de um conceituado treinador português, que afirmava que uma equipa só ganharia à outra se essa partida fosse realizada num jogo de Play Station.

Nessa altura, a mesma frase tinha como intenção mostrar que, só através do uso de uma realidade virtual, equipas com capacidades financeiras bem distintas se podiam ombrear. Mas a verdade é que essa frase faz hoje mais sentido do que nunca.

O futebol português vive, no meu entender, uma das suas maiores crises de identidade, uma vez que assistimos no “sofá”ao poderio das estações televisivas, agendando jogos para dias e horários incompreensíveis, contrapondo o que seria normalmente uma prioridade nestas organizações como são os adeptos dos clubes.

Aquele que deveria ser o desporto rei na união das massas e sociedades, e que é visto como um veículo de socialização entre povos, está a tornar-se, a cada dia que passa, num verdadeiro reality show televisionado.

Os estádios estão cada vez mais vazios, fruto dos horários apresentados aos adeptos e a todos os amantes desta modalidade. E tudo isto numa altura que os clubes estão muito melhor organizados, mais capacitados, e extremamente profissionais no seu dia-a-dia.

O Presidente do Sporting de Braga tomou posição esta semana, e bem, dando razão às inúmeras queixas que se vem sentindo por todos os clubes, demonstrando que o mais importante no jogo é a massa adepta e as famílias que gostam de acompanhar o clube da sua terra. Foi o único presidente que, até hoje, tocou com o dedo na ferida e alertou os principais organismos da necessidade de se dialogar e projetar novos caminhos.

Agendar um jogo do Campeonato Profissional para uma quinta-feira à noite, numa cidade a 600 Km de distância do clube visitante é um desrespeito por quem gostaria, com toda a justiça, de acompanhar uma equipa que seguia na 2.ª posição do campeonato e na perseguição da liderança.

Não querendo acreditar em “estratégias” que impossibilitem tal feito histórico pelas equipas que saem do pote dos eternos 3 candidatos, leva-me a pensar que o domínio económico e televisivo impõe as suas diretrizes focadas na obtenção do máximo lucro, desvalorizando o bem mais essencial na existência desta modalidade desportiva: os seus adeptos !

Mergulhados numa crise financeira generalizada de Norte a Sul (incluindo ilhas), os clubes venderam os seus direitos televisivos por largas dezenas ou centenas de milhões de euros para a próxima década. Essa ação resolveu, no imediato, os enormes problemas em que se encontravam mergulhados, mas estrangulou, como agora se vê, a possibilidade de defesa dos associados e adeptos que gostam de ir ao estádio ferver com a vitória do seu clube.

Sendo um apaixonado pelo desporto e pela sua organização, sempre aprendi que um evento só terá sucesso quando a qualidade do serviço prestado ao nosso cliente ou associado estiver na sua plenitude e for valorizada pelos mesmos. Se isso acontecer a fidelização é uma certeza e, com isso, a capacidade de investimento das pessoas nos seus clubes aumenta naturalmente.

Os clubes ingleses ou alemães, por exemplo, conseguem receitas altíssimas no pré jogo, em horários normais, onde as famílias se deslocam e investem do seu capital em inúmeros serviços colocados à disposição.

Se queremos famílias no futebol, fortalecendo a igualdade de género e de oportunidades, devemos organizar os eventos de forma a que os horários sejam compatíveis com essa vida familiar, que a realidade laboral ou estudantil de cada adepto não seja posta em causa, e que a qualidade logística do evento garanta entretenimento massivo. Respeitando estas premissas teremos mais gente apta a estar presente nos estádios.

Infelizmente, pelo que assisto, não faltará muito para que alguns jogos sejam feitos num campo quase sem adeptos (como se estivéssemos em realidade virtual) e visionado só por quem tem condições financeiras de continuar a aumentar a estrutura desta potência que “gere” o futebol, como são as estações televisivas.

Um abraço e até à próxima crónica.


Autor: Ricardo Sousa
DM

DM

15 janeiro 2019