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Caminhos da Abadia e de S. Bento da Porta Aberta

1.Sob a designação “Caminhos de S. Bento da Porta Aberta”, a gestão do santuário de S. Bento da Porta Aberta fez um trabalho promocional do santuário, ao estilo dos caminhos de S. Tiago de Compostela. É uma iniciativa culturalmente interessante sobre antigas tradições religiosas do povo profundo; mas, há uma falha nesse trabalho que devia ser rectificada e sem a qual esta campanha pode parecer uma apropriação de um património cultural da Senhora da Abadia. Por regra (poderá haver alguma excepção), esses caminhos não são originalmente de S. Bento da Porta Aberta: já eram caminhos dos peregrinos da Senhora da Abadia. Como se sabe, o culto a Nossa Senhora da Abadia é bastantes séculos mais antigo que o culto a S. Bento da Porta Aberta e os caminhos para S. Bento só começaram a fazer-se no seguimento da romagem à Abadia: iam à Senhora da Abadia e terminavam a sua romagem em S. Bento da Porta Aberta. O culto a S. Bento da Porta Aberta, em Rio Caldo, só começou a partir da construção de uma pequena ermida, no lugar da Seara da Forcadela, em 1615. Até finais do século XVII, não há memória de essa ermida ter significativa concorrência de devotos. Em 1758 já se refere que havia algum incremento de devoção popular; e só em 1845 é que há informação documental de haver grande número de peregrinos e de muitas esmolas que lá deixavam (o que terá dado origem a abusos de apropriação de dinheiros), como escreveu o então arcipreste de Pico de Regalados, citado no Portal do santuário: “a ermida é notável pelo numeroso concurso de romeiros que aí se juntam quase todo o ano, sendo mais célebres os dias do primeiro Sábado da Quaresma, no dia 21 de Março, Dia dos Prazeres de Nossa Senhora, no dia 11 de Julho e desde 10 de Agosto até dia da Assunção de Nossa Senhora…”. Ainda hoje, os dias entre 10 e 15 de Agosto continuam a ser os que mais romeiros trazem à Abadia e daí seguem para S. Bento da Porta Aberta. Na Abadia, a grande romaria continua a ser no dia 15 de Agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora; em S. Bento, a festa maior é no dia 13, referenciada a Nossa Senhora de Fátima.

2.As romagens a pé dos peregrinos de S. Bento sempre se fizeram pelos caminhos da Abadia (vinham à Abadia e, depois de aí cumprida a sua devoção, seguiam para S. Bento, até ao alto do Formigueiro, descendo depois em direcção ao lugar da Seara da Forcadela, em Rio Caldo, onde ficava a ermida de S. Bento e hoje fica o santuário de S. Bento da Porta Aberta); as excursões em autocarros é que começaram a ser autónomas: a Abadia foi perdendo frequência de excursões porque a estrada de acesso, a partir de Bouro, não tem boas condições para autocarros maiores. Em vão as gentes da Abadia se lamentam que “o S. Bento da Porta Aberta foi o diabo que apareceu à Senhora da Abadia…”, mas a verdade é que, enquanto as condições da estrada não melhorarem para suportar os grandes autocarros, eles continuarão a não ir por lá via S. Bento.

3.A devoção a Nossa Senhora da Abadia é, no mínimo, seiscentos anos mais antiga do que a devoção a S. Bento da Porta Aberta. As peregrinações começaram logo após o achamento da imagem da Senhora da Abadia por Paio Amado e Frei Lourenço. Mas, se atendêssemos a que o primitivo santuário de Nossa Senhora da Abadia, que terá sido construído entre os séculos VII e VIII ligado ao chamado Mosteiro das Montanhas, que existiu lá no planalto do monte de S. Miguel-O-Anjo, essa diferença de idade seria ainda maior (entre essa data e a data de 1758). Como se sabe, a quando da invasão e perseguição árabe, os monges desse Mosteiro das Montanhas tiveram de fugir, à pressa e esconderam a imagem de Nossa Senhora, para que não fosse profanada pelos muçulmanos. Mais tarde, terá sido encontrada pelo eremita Paio Amado, um fidalgo da corte de Dom Afonso Henriques, em Guimarães, que por volta do ano 1100, depois de ficar viúvo, decidiu vir para ali viver como asceta e penitente, fazendo companhia ao eremita frei Lourenço que aí vivia e gozava de fama de santidade. Segundo a tradição, certa noite, quando ia fazer as suas orações, Paio Amado terá visto uma luz intensa no vale. Foi contar a frei Lourenço, que comprovou essa visão. No dia seguinte, de manhã cedo, foram investigar o que se passava e descobriram, numa gruta, a imagem da Senhora da Abadia. Logo decidiram erguer, aí por perto, uma capela para sua veneração e passaram a residir nas suas proximidades, deixando de morar no planalto agreste do monte de S. Miguel-O-Anjo.

A notícia do achamento da imagem e dos milagres correu célere e chegou aos ouvidos do arcebispo de Braga, que foi visitar esse lugar. Depois de verificar a pobreza extrema em que viviam os dois eremitas, mandou construir aí um abrigo para eles e uma igreja mais digna para a veneração da imagem achada. Entretanto, outros eremitas se foram juntando a eles. E de todo o lado começaram a vir grupos de peregrinos à Abadia. Assim se foram fazendo os caminhos da Abadia, que séculos mais tarde haviam de conduzir também os peregrinos até S. Bento da Porta Aberta. Em 1148, atraído pela fama dos milagres e da afluência de peregrinos, o próprio Dom Afonso Henriques também foi visitar o santuário e informar-se do que aí se referia. Fez grandes doações para o culto e dotou o mosteiro de variados bens para a sustentação daqueles monges e apoiou a construção de um novo convento, cá mais para baixo, o Convento de Bouro, agora transformado em Pousada de turismo.

Destaque

A devoção a Nossa Senhora da Abadia é, no mínimo, seiscentos anos mais antiga do que a devoção a S. Bento da Porta Aberta.


Autor: M. Ribeiro Fernandes
DM

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9 agosto 2020