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Calvário de D. António Barroso

1. Durante o governo da I República, proclamada em 05 de outubro de 1910, foram tomadas medidas contra a Igreja Católica. O grande mentor da legislação produzida, Afonso Costa (Afonso Maria de Ligório Augusto da Costa, de seu nome completo), Ministro da Justiça logo no Governo Provisório, por diversas vezes afirmou a convicção de que o Catolicismo em Portugal tinha os dias contados; acabaria dentro de duas ou três gerações.

O Episcopado reagiu de diversas formas, tendo ficado célebre a«Pastoral colectiva do episcopado português ao clero e fiéis de Portugal»,datada de 24 de dezembro de 1910, cuja divulgação foi proibida.

2. António José de Sousa Barroso foi o Bispo que mais se empenhou em que, contrariando ordens do Governo, essa Pastoral fosse dada a conhecer aos fiéis à estação da Missa. Afonso Costa chamou-o a Lisboa e, depois de o sujeitar aos insultos da populaça, fez sair um decreto em que o declarava «destituído das suas funções de bispo» e «vaga a diocese» do Porto, «como se a vacância (...) resultasse de falecimento». Concedia-lhe, porém, «em homenagem aos seus serviços no Ultramar e às suas virtudes pessoais, a pensão vitalícia anual de 1200$00 reis» (decreto 08 março 1911). Em circular enviada aos párocos esclarecia que «os bens pessoais e todos os papéis serão entregues ao ex-Bispo». 3. Por decreto emanado do Ministério da Justiça, de 07 de março de 1911, publicado no Diário do Governo de 09 de março, D. António Barroso foi desterrado da sua diocese por tempo ilimitado. Passou a noite de 07 para 08 detido no quartel-general. A 09 de março seguiu sob prisão para o colégio de Sernache do Bonjardim. De lá transitou para a sua freguesia natal, Remelhe, no concelho de Barcelos, onde viveu até regressar ao Porto, a 03 de abril de 1914. O bispado foi, entretanto, governado pelo Deão do Cabido, Manuel Luís Coelho da Silva, que veio a ser Bispo de Coimbra (1915-1936). Em Remelhe procedeu a numerosas ordenações na capela de Santiago, que elegeu para sua Catedral de Exílio. 4. Ainda durante este exílio D. António Barroso foi julgado em 12 de junho de 1913 no Tribunal de S. João Novo, no Porto, por se ter deslocado à freguesia de S. Tiago de Custóias (diocese do Porto), a fim de representar o Santo Padre Pio X como padrinho de batismo de um neto de José Joaquim Guimarães Pestana da Silva. Defendido pelo advogado Francisco Joaquim Fernandes, foi absolvido. Em 03 de abril de 1914 pôde regressar à sua diocese. 5. Porque se encontrava exilado em Remelhe, o nome de D. António Barroso não figura entre os signatários do Protesto Coletivo que o Episcopado aprovou em 05 de maio de 1911, no qual a crítica ao Decreto de 20 de abril de 1911, a que foi dado o nome de «Lei da Separação do Estado das Igrejas» se resume em quatro palavras: injustiça, opressão, espoliação e ludíbrio. Contristado, em carta de 27 de maio de 1911, dirigida ao Encarregado de Negócios da Santa Sé, escreveu: «Já há dias comuniquei ao Senhor Cardeal Patriarca que se o Governo aplicar qualquer pena aos Prelados que assinaram o manifesto (Protesto Colectivo), protesto que me não fosse aplicada a mim; reclamarei publicamente para que também a mim seja aplicada, pois que com eles sou solidário e da melhor vontade tinha assinado o protesto se tivesse assistido à reunião». 6.Em 1917 foi condenado ao exílio por haver permitido que algumas senhoras vivessem em comunidade, em Vila Boa de Quires. Passou quatro meses deste segundo exílio no Hotel Avenida, em Coimbra, tendo sido libertado em 20 de dezembro de 1917 pelo governo de Sidónio Pais. Informação: em complemento do que escrevi na semana passada fui informado de que na cidade do Porto também existe uma estátua em honra de D. António Barroso.
Autor: Silva Araújo
DM

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15 setembro 2022