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“Calem-se as armas!”

Calem-se as armas, quem faz a guerra esquece a humanidade” – eis o apelo do Papa Francisco, no passado dia 27. Ora, “esquecer a humanidade” tem sido a rota política do longo consulado de Vladimir Putin na Federação Russa.

1. Se houve dito propalado pelo novo Czar da Rússia foi que não haveria invasão, que isso era invenção do Ocidente, eram manobras militares já previstas, etc., garantias que foram dadas aos seus homólogos francês, alemão e estadunidense. Putin é um ditador e mentiroso (atributos que andam juntos), e sem escrúpulos: quer protagonizar, hoje, o poder da União Soviética (URSS) e da Rússia Imperial, juntos, não se coibindo da ameaça nuclear. A brutalidade da invasão russa tornou patente, como disse a Embaixadora da Ucrânia em Portugal, que "a Federação Russa continua a política externa agressiva do antigo Império Russo e da antiga União Soviética, que envolve a expansão e o controlo das terras dos países vizinhos".

2. Sendo a Ucrânia o 2.º maior país da Europa, em área, depois da Rússia, remonta longe no tempo: já nos séculos V e VI, tribos de povos chamados eslavos chegaram ao território que hoje é a Ucrânia; no século IX, invasores vikings se juntaram aos eslavos e fundaram um poderoso reino, então o maior Estado da Europa, cuja capital era Kiev, importante rota de comércio, sob influência da fé cristã ortodoxa: como Nação, antecedeu Rússia. O país fragilizou-se depois com a invasão dos mongóis, foi dividido, mais tarde ocupado por outros reinos (Lituânia e Polónia) que forçaram ucranianos aos trabalhos inclementes da terra, e sem direitos; fugindo da servidão e juntando-se aos Cossacos, em 1648 conseguiram libertar-se e fundaram um Estado, próspero nos séculos XVII e XVIII, depois tomado pelo Império Russo, do qual se tornou independente, de 1917 a 1922; então invadido pela Rússia, que a anexou para formar a URSS, atravessou períodos difíceis. Com a implosão desta, readquire a independência em 1991, mas sofre novas invasões da Rússia, em 2014 (e a anexação da Crimeia) e em 2022. A história da Ucrânia é, pois, um longo caminho na busca da independência e da liberdade, disputado pelos vizinhos.

3. Holodomor (palavra ucraniana que significa ‘deixar morrer à fome’) carrega tragicamente a memória do último século, num genocídio (1931-1933) perpetrado contra a população da Ucrânia pelo comunismo soviético, liderado por Estaline, que dizimou os ucranianos em represália pela resistência à colectivização agrícola. Note-se ainda que dos milhões de mortos nos Gulags siberianos (campos de concentração comunista), mais de 20% foram ucranianos. Se a memória histórica dos ucranianos está pejada de violência por parte dos russos, juntam-se agora os horrores da actual invasão, que os ucranianos jamais esquecerão.

4. Não só Putin rasgou os dois Acordos de Minsk (2014 e 2015), como foi esquecido o Memorando de Budapeste: de facto, com a implosão da URSS, a Ucrânia herdou um arsenal de cerca de 3000 armas nucleares em seu território, do qual se despojou pelo entendimento firmado em 1994, entregando a Moscovo as ogivas (se as mantivesse, não seria invadida); em troca dessa desnuclearização, a Rússia, os Estados Unidos e o Reino Unido comprometeram-se a "respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia" e a "abster-se da ameaça ou do uso da força". Conclui-se que qualquer acordo, feito ou a firmar-se, quando necessário, não passa do papel…

5. Putin perpetrou uma longa escalada bélica. Em 7 Agosto de 2008, a Rússia invadiu a Geórgia, era então primeiro-ministro; tudo estava terminado cinco dias depois, o contingente militar georgiano é expulso das províncias independentistas da Abkhazia e da Ossétia do Sul. Nos últimos dois anos, o novo Czar enviou tropas para o Azerbaijão, o Tajiquistão, a Bielorrússia e o Cazaquistão, sempre a pedido dos regimes despóticos que oprimem esses países, para reprimir revoltas armadas (Tajiquistão e Cazaquistão) ou de civis (Bielorrússia) após eleições fraudulentas. Em 1999, era primeiro-ministro há três meses, o ex-espião do KBG encetou a sua ambição imperialista, quando mandou invadir a Chechénia (uma região do Cáucaso); alguns meses depois (Fevereiro de 2000), pela resistência imprevista, as tropas russas arrasam a capital, Grozni, e as principais cidades, com mísseis, fossem os alvos civis ou militares.

6. O Ocidente não se saiu bem: não se comprometendo, nunca foi claro sobre a adesão da Ucrânia à NATO e à União Europeia (UE). Com as manifestações pró-europeias em 2014, conhecida como a ‘Revolução pela Dignidade’, na Praça Maidan, os ucranianos disseram bem alto o que queriam! Mais que a NATO, talvez Putin odeie mais a UE (financia partidos europeus anti-UE) e os seus ideais de paz e solidariedade. O exemplo está à porta, com os três países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia), membros da UE e da NATO desde 2004, que assim consolidaram as respectivas independências e o florescimento desses países, hoje livres e prósperos e com altos índices de felicidade, em contraste com a vida penosa na vizinha Rússia.

No discurso proferido (videoconferência) pelo valoroso Presidente da Ucrânia, Volodymir Zelensky, ao Parlamento Europeu, hoje (1 de Março), longamente ovacionado de pé, as palavras foram precisas: “Provem que estão connosco. Provem que não nos deixam cair. Provem que são realmente Europeus. E então, a vida triunfará sobre a morte e a luz triunfará sobre as trevas”.


Autor: Acílio Estanqueiro Rocha
DM

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3 março 2022