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“Bom caminho”

Depois de, no ano passado, ter percorrido, a pé, o Caminho Português de Santiago, prometi a mim mesmo voltar a Compostela, por outros caminhos. Foi o que aconteceu nas últimas semanas, em três etapas de dois dias cada. Parti da Matriz de Vila do Conde e percorri o Caminho Português da Costa. O caminho desinstala... Todo o caminho se faz de momentos, motivos e ingredientes. E, se quem caminha deixa pegadas no caminho, é o caminho a mexer interiormente com quem o percorre. O caminho deixa marcas... Cada momento do caminho é ímpar e único. Trata-se de uma experiência tão intensa e diversificada, tão pessoal e íntima que cada um faz a sua e, por isso, são tantas as narrativas quantos os peregrinos. Os motivos que fazem deste um caminho diferente e especial são: a extensão (cerca de 250 quilómetros!) e a beleza (“caminhar” e “contemplar” tornam-se dois verbos quase sinónimos); a saudação “Bom caminho”, a todos dirigida, que faz dele um espaço ímpar de fraternidade; a caminhada em grupo que reforça laços e fortalece amizades (“ao lado do teu amigo, nenhum caminho será longo”, diz um provérbio chinês). A par disso, há ingredientes que dão consistência e sabor ao caminho, tornando-se indispensáveis para nele persistir: - A ousadia de pôr pés a caminho, com tantos quilómetros pela frente, e a coragem de o enfrentar, em cada dia, apesar do cansaço muscular e de eventuais bolhas nos pés. - A ajuda dispensada a quem nos acompanha, uma das mais profundas experiências do caminho e a que melhor nos faz perceber que partilhamos a mesma condição: passamos pela vida, na condição de peregrinos, com uma outra pátria no horizonte. - O contacto com a natureza que nos leva, em cada momento, ao interior de nós mesmos e nos projeta para o além (Sb 13, 5: “na grandeza e na beleza das criaturas se contempla, por analogia, o seu Criador”). - A superação que nos faz seguir em frente, mesmo quando já não são as pernas que caminham, mas a cabeça. A motivação, partilhada e agradecida, supera o cansaço, como o sugere a expressão outrora muito usada no caminho Ultreia y Suseia (aparece, pela primeira vez, no livro V do Codex Calixtinus, o mais antigo guia do peregrino de Santiago). - A fé, ponto de partida e de chegada. Penso que sai sempre reforçada e até, em parte, reconfigurada. É interessante notar que muitos agnósticos e incrédulos tenham iniciado, no caminho, a aventura da fé. À medida que se percorre o caminho, fica-se com a sensação de que fazê-lo é sair do nosso mundo e entrar num outro que, aos poucos, passa a ser também o nosso. Percebe-se que a condição humana (a palavra vem de “húmus”) é telúrica (somos feitos da terra que calcamos), mas também se intui que há uma ânsia de infinito que nos habita (os olhos fixam o céu). A propósito, é oportuna a frase densa que li, à saída de Padrón: “Não peço mais que o céu por cima de mim e o caminho por debaixo dos meus pés”. O caminho deixa marcas tão profundas em quem caminha que não se fica igual, mas necessariamente melhor: mais humano e mais cristão! Continua a ser um excelente espaço de descoberta e difusão do evangelho, contribui para a (re)configuração da identidade humana e cristã de quem o procura e percorre. Agradeço a Deus e a quem me tem acompanhado no caminho. Deixo uma palavra de incentivo a quem quer percorrê-lo, mas ainda não se resolveu a isso. É mais cómodo ficar em casa, mas o caminho desinstala, exige renúncia e determinação, põe-nos a caminho, mesmo depois de se fruir a sensação indescritível de ao destino ter chegado.
Autor: P. João Alberto Correia
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17 agosto 2020