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Batalha dos corações

Desde que eclodiu a ‘guerra na Ucrânia’, pela invasão da Rússia, no passado dia 24 de fevereiro, que temos visto e ouvido as mais díspares interpretações, explicações, leituras, rotulagens e mesmo expressões descritivas ou informativas… De entre tantas dessas ouvi, porque foi na rádio, uma que ficou a ressoar em mim com mais intensidade: ‘batalha dos corações’.

Que lugar tem esta expressão, por entre tantos títulos ou gestos? Que envolvência pode significar, perante tantas ações de benemerência? Qual o alcance desta expressão naquilo que queremos que seja o fim desta anormalidade civilizacional? Onde poderemos ancorar esta expressão como proposta humana e desejo cultural?

Tentando responder a estas questões, deixo algumas pistas:

1. De facto, esta guerra na Ucrânia, pela invasão da Rússia, trouxe à vista tantas pretensões de povos que já foram grandes em vários momentos da História: foram impérios e tornaram-se ditaduras; subjugaram povos e trituraram civilizações; criaram utopias e fomentaram animosidades; marcaram épocas e deixaram feridas… Tudo isso e muito mais podemos ler na história da Rússia. Por isso, este episódio já no século vinte e um poderia não passar de mais um trejeito imperialista, não fosse vivermos numa era de globalização e da informação continuada… Há meia dúzia de anos aconteceu a anexação de uma parte do território da Ucrânia, a Crimeia, e quase passou desapercebido à vista dos povos e das televisões. Agora está a verificar-se algo de diferente e talvez de mais agravado pelas possíveis consequências no resto da Europa.

2. Boa parte da impressão desta ‘guerra’ recai sobre uma figura, algo sinistra e, porventura, bem mais maquiavélica do que se julgava: W. Putin, o presidente da federação russa. Parece ser mais uma personagem surgida daquelas paragens do extremo leste da Europa que veio para ficar na memória dos povos e nações. Por certo não faltarão adjetivos para substantivar o seu comportamento, que tem tudo menos de democrático, no entendimento de certas culturas ocidentais. Mesmo escarafunchando nos anais e registos, pouco ou quase nada nos é fornecido. Se atendermos que, à sua volta, está montada uma armadura de resguardo ou mesmo uma teia de intrigas, ficaremos sem conhecer quem será, embora o possamos identificar nas fotografias e nos arquivos bem manipulados.

3. De entre os efeitos que esta guerra na Ucrânia pela invasão da Rússia trouxe à Europa foi uma mais nítida capacidade de união, tanto ao nível político, como na ultrapassagem de peias em relação à defesa. Poucos destoaram desta unanimidade.

À exceção de alguns partidos (ou ideologias) saudosistas dos impérios fundados na Rússia, a condenação deste ato torpe e soez, deixou a sensação que temos um longo e largo caminho a fazer em ordem à pacificação do mundo ocidental, estando de atalaia quanto a fatores de não-paz ao perto ou mais longe.

4. Como não admirar e exaltar a onda de solidariedade e de comunhão com aqueles que estão a sofrer as consequências desta guerra. De forma rápida, espontânea ou subtil vimos crescer a capacidade de ir ao encontro dos desalojados, prófugos, refugiados… pessoas que fogem, uns com nexo e em vista de encontrar familiares e outros à deriva, salvando a vida e dos mais novos…

Comboios de carros e noutros meios levam ajuda. Recolhido o apoio é preciso fazê-lo chegar a quem se destina. Vimos que muitos corações entraram na batalha de apoiar a todos, sobretudo dos mais fragilizados e precisados de refrigério.

5. Numa marca indelével de fé vimos e ouvimos orações e atos de comunhão com quem sofre, suplicando ao Céu que venha em ajuda dos que vivem estas agruras. Queira Deus que nos comportemos com mais capacidade de fé do que nos recentes anos de pandemia. De olhos bem abertos para com os outros, abramos ainda mais ao coração à conversão sincera e humana.


Autor: António Sílvio Couto
DM

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14 março 2022