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As tentações de Jesus e as nossas...

Pode parecer estranho, mas as tentações de Jesus são as nossas! Encarrega-se de o lembrar, em cada ano, o evangelho do I Domingo da Quaresma, um texto que tem a particularidade de nos trazer à mente que a tentação não é uma ação pontual, mas a síntese da nossa vida cristã, na sua condição, modos e formas.

Em Lucas, o batismo de Jesus (3, 21-22) e as suas tentações (4, 1-13) apresentam-se como um dítico em que Jesus é revelado ou se revela na sua condição de “filho de Deus”, com o Espírito Santo a conduzir os acontecimentos: “desceu sobre (...) em forma corpórea. E do Céu veio uma voz: “Tu é o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado” (Lc 3, 22); “Cheio do Espírito Santo; Jesus retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, e era tentado pelo diabo” (Lc 4, 1-2)

Definido como “diabo” (na sua aceção grega, a palavra significa “aquele que divide”), o tentador serve-se da mesma estratégia, por três trezes, para voltar à tentação: “Se és Filho de Deus...”. Não resta dúvidas de que a narração da tentação é “um evangelho em miniatura, em que se dramatizam as opções fundamentais de Jesus” (R. Fabris, “O Evangelho de Lucas”, p. 56) e um texto especular, onde estão presentes as tentações humanas.

Jesus é tentado (convém não perder de vista que o texto é uma narração estilizada e uma síntese das muitas tentações pelas quais Jesus passou) nas três áreas fundamentais que reassumem o essencial da vida: o alimento, o poder/domínio e a fé.

Após a sua revelação como “filho de Deus”, no batismo; e depois de quarenta dias de jejum, é expectável que Jesus senta fome, mas ao tentador não parece normal que não tivesse pedido para si o que, a caminho de Jerusalém, havia sugerido como pedido a Deus: “Dá-nos o nosso pão de cada dia” (Lc 11, 3). À sedução do tentador, a resposta de Jesus é magistral: “nem só de pão vive o homem” (Dt 8, 3; Mt 4, 4 cita de forma completa: “mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus”). Sugere que há mais pão e alimento do que o da mesa.

A segunda tentação é mais descarada, mentirosa e ardilosa, porque nela o tentador assume-se como aquele que detém o poder: “Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver” (Lc 4, 6). Mas há uma condição à mistura: “se te prostrares diante de mim, tudo será teu” (4, 8). É o tentador a colocar-se no lugar de Deus! Jesus responde, uma vez mais, com a força e a lucidez da Palavra de Deus que coloca as coisas no seu lugar: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto” (v. 8). Não só não é o dono, como não é Deus! Não deixa de ser, contudo, esse o estatuto que, na relação com os outros, pretendemos assumir!

A última tentação de Jesus acontece na cidade de Jerusalém, a última etapa da sua caminhada (é essa a razão que motiva a inversão que dela faz Lucas em relação a Mateus), mesmo se o tentador perverte tudo e faz passar a ideia de que nada acontecerá a quem em Deus confia e é por Ele protegido. É a insinuação de uma fé fácil e infantil, ao arrepio daquela que é proposta ao longo do evangelho: “Jesus recusa o seu destino último, o da salvação conseguida não triunfalmente, mas através da pobreza extrema da cruz” (G. Ravasi, Secondo le Scritture, Anno C. p. 71), a que acrescenta a norma fundamental de qualquer israelita: “Não haverá para ti outros deuses na minha presença. (...) Não te prostrarás diante dessas coisas e não as servirás, porque Eu, o Senhor, teu Deus, sou um Deus zeloso” (Ex 20, 3.5).

Sendo idênticas as tentações, é com um texto programático que Lucas diz aos cristãos que “serem filhos de Deus, batizados, não é um privilégio, um seguro contra os riscos e as provas, e sim, dom e empenho para acolher a fidelidade e liberdade, segundo a lógica do filho único. As tentações de Cristo são emblemáticas, porque enraizadas em toda a situação humana: a tentação do pão pretendido como possessão e não recebido como dom; a tentação do poder atrás do qual está a escravidão; a tentação da magia, onde Deus fica reduzido a uma força que se pode manipular” (R. Fabris, o. c., p. 57). Afinal, as tentações de Jesus são as nossas, apesar de ser bem diferente é nossa forma de lhes responder!


Autor: P. João Alberto Correia
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14 março 2022