-
Faleceu aos 95 anos, o historiador Joaquim Veríssimo Serrão). Por 22 anos presidente da nossa Academia de História, galardoado com o Grande Prémio Príncipe de Astúrias, reitor da Universidade de Lisboa em 1973-74, investigador com vasta bibliografia, autor de uma famosa História de Portugal (em 19 volumes). Na sua juventude era algo liberal e esquerdista bastante moderado; mas acabou “saneado” pelo 25 de Abril, facto de que nunca foi devidamente ressarcido; até porque nunca repudiou a amizade que o ligava a Marcelo Caetano, de quem foi biógrafo e a quem foi visitar no exílio do Brasil. Era natural do concelho de Santarém, onde veio a falecer no início deste Agosto. Viveu em França em 2 ocasiões: a 1.ª, quando foi leitor de português nas Universidades de Toulouse ou Montpellier (desde 1950, cf. o recente artigo, no DM, do prof. Moura Pacheco); a 2.ª, ainda antes de concorrer a catedrático, quando foi director do Centro Cultural Gulbenkin, de Paris.
-
A carta do prof. Andrade Guimarães). A 1.ª vez que falei com Veríssimo Serrão, foi na 2.ª metade dos anos 70, era eu ainda bastante “menino e moço”. Foi assim. A minha avó materna foi operada (com muito sucesso) a um cancro intestinal, pelo prof. Francisco Gentil, em Lisboa. Era no verão e o meu pai foi comigo e outros familiares passar 15 dias à capital, estacionando a sua auto-caravana na periferia da praça de touros do Campo Pequeno. No final, a avó regressou connosco ao Porto (aliás a Ovar, onde residia). Mas havia outro assunto. O meu pai (e eu também) era grande amigo do catedrático de Matemática António Andrade Guimarães; que por sua vez era bastante amigo de Veríssimo Serrão. Ambos tinham sido moderadamente anti-salazaristas na juventude; mas, tal como Serrão fora convidado por Caetano para ser reitor da Univ. de Lisboa, Andrade Guimarães (homem cultíssimo, também no campo das Letras e Música Clássica, a quem a cidade de Guimarães, terra de seu pai, ainda não prestou a merecida homenagem…) aceitara, por 1972, o cargo de director da Fac. de Ciências da Univ. do Porto. E foram ambos “saneados” (sem qualquer salário) pela “revolução dos cravos”. A mim, foi-me pedido que fosse ao velho prédio, no centro de Lisboa, onde então morava o prof. Serrão e lhe entregasse por mão própria uma carta, decerto importante, da parte do prof. Guimarães. Assim fiz; fui recebido com afabilidade pelo historiador, num fim de tarde; mas a visita foi curta, até porque o respeito era grande e o assunto não era meu.
-
Reencontro em Santarém, quase 20 anos depois). Desde 1993, fui eu aceite como colaborador (até 96, ocasional) do JN, do Porto, onde permaneci, com bastante sucesso quase até 2001. Porém, a minha ambição era Lisboa, onde em tempos iniciara a minha formação em Direito. O “padrinho” que me ocorreu (depois de o meu futuro parente Hermano Saraiva me ter falhado…), foi o ilustre Veríssimo Serrão. E fui a Santarém falar com ele. Mal se lembrava de mim, mas tinha memória da tal carta, em Lisboa. E recebeu-me, com afabilidade ainda maior que da 1.ª vez.
-
Tudo isto, apenas meses antes de inesperadamente ele receber o prémio Príncipe de Astúrias). A partir dessa 2.ª visita, passei a ir à casa de Serrão (no bairro semi-campestre da Portela das Padeiras, à entrada de Santarém) com uma regularidade de 4 ou 5 visitas por ano. A marcação era difícil, feita por telefone, e às vezes não podia ser. Foi lá que conheci seu filho Vítor, catedrático de História da Arte, que uma tarde me andou a mostrar os monumentos de Santarém, cidade onde “repousa” Pedro Álvares Cabral. “Trate-me por Vítor”, dizia ele afavelmente…
-
A aldeia de Tremês, um traço comum). A minha intimidade com o veterano historiador foi deveras reforçada quando lhe apresentei a beldade com que namorara, uma natural de Abrantes mas cuja irmã era cirurgiã no hospital de Santarém; e por coincidência moradora numa casa, a 100 metros de Serrão. Mas havia mais. Serrão era duma aldeia a norte de Santarém donde também provinha parte da família de uma das duas minhas bisavós maternas, Joaquina Pereira. Coincidência verdadeira, da qual Serrão de início, duvidou. A aldeia é Tremês e fica perto da terra da mãe de Mário Soares (Pernes); ou da de Carlos Cruz (Parceiros de S. João); ou da cantora Adelaide Ferreira (Minde); ou do general Delgado (Torres Novas); ou de Saramago (Azinhaga); ou de Pedro Barroso (Riachos); e cerca de 30 kms. a sul do Santuário de Fátima. Onde, na Capela das Aparições e por um favor especial, os meus pais se tinham casado.
-
Uma casa cheia de livros e… de gatos). Serrão era um homem já septuagenário e divorciado duas vezes. Já naquela altura vivia sozinho na sua propriedade; e foi “coleccionando” gatos. Gatos e algo poeirentas estantes com imensos livros, era o que havia mais naquela casa; uma casa moderna e térrea, com um espaçoso logradouro, mas poucas sombras; cercada com um murete e alguma rede.
-
Inquietude e um olhar prescrutador). Serrão era uma pessoa cheia de energia. Estava sempre atento a pormenores do que dizíamos ou fazíamos, pelo que quando se falava com ele “estava-se sempre em guarda”. Era um homem pequeno e algo gordo, o olhar irrequieto; era careca e um pouco glabro, mas com bastante cabelo no peito. A voz era calorosa mas algo “esganiçada”; mas transmitia a certos interlocutores (como eu), optimismo e vontade de trabalhar. Que “um escritor, devia escrever e escrever sempre”. Que “escrever para jornais, era ingrato, porque algo efémero” (não concordo…). Em casa, recebia os amigos, vestido sem gravata ou formalismos especiais.
Autor: Eduardo Tomás Alves