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As formigas de Bernard Stiegler

Devemos ao filósofo francês Bernard Stiegler, cuja morte era ontem devidamente assinalada em Portugal nas páginas 40 e 41 do semanário Sol, algumas das críticas mais certeiras dirigidas aos media audiovisuais e à destruição que provocam da capacidade de atenção – dos mais novos, designadamente. Também lhe devemos uma sugestão útil para aproveitar a pandemia para mudar de vida. A proposta para tirar proveito do penoso circunstancialismo imposto pela crise mundial de saúde pública foi apresentada em meados de Abril no diário francês Le Monde[1]. O confinamento, escreveu Bernard Stiegler, deveria ser uma ocasião para uma muito ampla reflexão sobre a possibilidade e a necessidade de mudar as nossas vidas. Tal implicaria aproveitar a oportunidade para revalorizar o silêncio; os ritmos que nos oferecemos, em vez daqueles que nos dominam; de uma utilização muito parcimoniosa e ponderada dos media e de tudo o que, vindo de fora, distrai o homem de ser um homem. Bernard Stiegler preconiza que se preserve em particular a virgindade da manhã de qualquer intrusão dos media. Esta disciplina, diz ele, “é essencial”. A manhã pode então tornar-se “uma frutificação do virgem, do vivaz e do belo hoje”, conduzida “pelo que os estóicos chamam tekhnè tou biou e Michel Foucault ‘técnica de si’”. Sobre as redes sociais também falou amplamente Bernard Stiegler. Numa entrevista concedida ao jornal Le 1[2], explicava por que se recusava a ter uma conta no Facebook: não se queria tornar “uma formiga digital”. As formigas não foram uma ocasional metáfora. O filósofo tinha trabalhado décadas antes com entomologistas especializados em formigas das florestas mexicanas. Essas formigas muito grandes, organizadas em formigueiros com menos de 100 formigas, podiam ser observadas, filmadas e rotuladas. Os investigadores perceberam que, quando estão activas, as formigas emitem mensagens químicas que dizem: “Estou a fazer isto ou aquilo”. Para Bernard Stiegler era imaginável que, com as redes e os equipamentos de que disporíamos, nos tornássemos formigas digitais produzindo rastos que sinalizassem o que estávamos a fazer. Foi o que aconteceu com o Facebook: milhões de pessoas submetem-se não a um programa genético, mas ao modelo de negócios de uma empresa. “Resultado: encontramo-nos presos num dispositivo como uma formiga num formigueiro”. Referindo-se ao “sistema de captura” da rede social, o filósofo observava que, se receber uma mensagem no Facebook, só a pode ler se tiver uma conta no Facebook, e quanto mais pessoas tiverem uma conta, mais obrigação sente de entrar na rede. “Este sistema, que nos incita a expressarmo-nos através da publicação de fotografias ou de mensagens, parece inicialmente estar ao nosso serviço. Mas rapidamente descubro que estou, pelo contrário, ao serviço da rede, que trabalho para ela e que a ela me submeto. Já foi dito sobre os media audiovisuais de massas: ‘Quando é gratuito, és tu o produto’. No Facebook, não és apenas o produto, mas também o produtor. Trabalhas para o sistema gratuitamente”. Esta espécie de voluntariado está ao serviço de uma rede social, que Bernard Stiegler considera como “anti-social: curto-circuita e parasita as relações sociais ao controlá-las remotamente”. A morte do filósofo veio recuperar estas advertências às formigas que vão no carreiro. [1] https://www.lemonde.fr/livres/article/2020/04/19/bernard-stiegler-retourner-le-confinement-en-liberte-de-faire-une-experience_6037085_3260.html [2] https://le1hebdo.fr/journal/facebook-est-il-notre-ami/124/article/facebook-est-foncirement-toxique-et-avilissant-1846.html Destaque A morte do filósofo veio recuperar estas advertências às formigas que vão no carreiro.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
DM

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9 agosto 2020