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As crianças precisam de brincar

Nos meus tempos de criança brincar era a nossa melhor e mais atrativa atividade, o nosso oxigénio, a nossa mágica forma de vida; e para isso juntavam-se os vizinhos nos tempos livres e os alunos no fim da escola; e, muitas vezes, nos esquecíamos das obrigações familiares e escolares para dar largas à brincadeira; e, assim, quantas vezes, a mãe nos ia buscar de chinelo em punho para castigar o nosso esquecimento das horas das refeições.

O ludismo sempre foi uma atividade indispensável e constante na vida normal das crianças; e, obviamente, o jogar, o correr, o saltar ou o trepar sempre deram à criança prazer e poder sobre si própria e sobre as coisas.

Através do jogo a criança aprende e define regras, interage em grupo e nele marca presença e pertença; e, sobretudo, desenvolve a sua motricidade, capacita o seu equilíbrio sensorial e socializa-se, aprendendo a saber perder, a saber ganhar e a assumir funções de liderança e partilha.

Depois, a brincar ainda aprende a lutar contra as adversidades, a disciplinar o corpo, a treinar a mente para os imensos desafios que o mundo lhe reserva, a incrementar a autoestima e a autorregulação emocional; como, igualmente, desenvolve a capacidade de lidar com o imprevisto, a tomar decisões, a resolver problemas e a agir socialmente.

Pois bem, as crianças, hoje, pouco tempo ou nenhum tempo têm para brincar, porque os adultos querem que elas cresçam depressa e limitam-lhes demasiado o tempo e as oportunidades lúdicas, tais as ocupações extraescolares a que as submetem; e, frequentemente, se assiste a uma correria diária para a natação, para o balé, para o desporto, para a música, etc, etc. exigindo-se à criança uma permanente ocupação.

Segundo dados estatísticos recentes, as nossas crianças passam nas creches e infantários mais de 10 horas diárias o que, em relação à média europeia, nos coloca num desonroso primeiro lugar; e o espaço que lhes é destinado em tais instituições anda pelos quatro metros quadrados contra os 24 a 33 metros quadrados por criança, por exemplo, na Noruega; onde, no inverno, ainda lhes permitido passar duas a seis horas, por dia, no exterior em brincadeiras; e, ademais, no nosso país, apenas, 24% das crianças brincam as três horas diárias que a OMS recomenda.

Sabemos que os pais, atualmente, têm medo de deixar os seus filhos brincar na rua devido aos perigos vários que os podem atingir, dos quais os mais tenebrosos são, sem dúvida, os raptos e as violentações; e, além disso, dificilmente podem contar com a vigilância e apoio, quer dos vizinhos quer da comunidade local que se deviam organizar no sentido de juntar as crianças dos prédios onde habitam num local seguro ou de lazer bem vigiado, a brincar juntamente; e, melhor ainda seria as forças de segurança pública darem uma ajuda para a realização de tais atividades lúdicas comunitárias livres de perigo.

Daqui resulta uma educação que faz das crianças adultos em miniatura, autênticos homúnculos escrupulosamente cumpridores, medrosos, quietos e sujeitos a um horário escolar de oito horas, negando-lhes a ferramenta ancestral e poderosa prevista no seu código genético – o ludismo – que tão fundamental é para o desenvolvimento integral de todas as suas capacidades e competências motoras, cognitivas, emocionais e sociais.

Agora, os pais cansados, aborrecidos e absorvidos pelo emprego diário e preocupados com os problemas económicos e sociais que os atingem deixam as crianças entregues à televisão, à internete, à tablete, ao smartefone ou ao telemóvel como forma de entretenimento; e, assim, o declínio do ludismo que fatalmente acontece leva à predisposição, cientificamente comprovada, para a doença mental e perturbações várias, como sejam a depressão, a ansiedade, o défice de atenção, a hiperatividade e o estresse; porque a criança que não brinca deixa de desenvolver a flexibilidade mental, pois o nosso cérebro possui neuro-plasticidade ou seja possui células cerebrais sempre a crescer e a desenhar novos caminhos.

Assim, necessário e urgente se torna que os pais deixem brincar os seus filhos e arranjem algum tempo para com eles brincar; como igualmente necessário e urgente é que os nossos governantes criem as condições escolares, familiares e sociais para que tal possa acontecer.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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28 setembro 2022