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Anjo da guarda: amigo verdadeiro ou amigo ignorado?

No dia 2 deste mês, mês que é dedicado à oração mais popular em honra de Nossa Senhora (mês do Rosário), celebra-se uma Memória Obrigatória, onde se comemoram os Santos Anjos da Guarda.

Às vezes, esquecemo-nos um pouco – ou muito! – destes seres angélicos, que têm como missão específica, por proposta do seu e nosso criador, cuidar e ajudar cada um de nós a encontrarmos, na vida terrena, o caminho que nos leva até ao céu, fim para o qual viemos à existência.

Esta amabilidade de Deus, que tudo faz da sua parte para aí nos conduzir, é mais um aspecto da sua infinita misericórdia para connosco. O nosso anjo da guarda não é um intrometido, que se mete pela intimidade da pessoa duma forma abusiva ou inoportuna. Mais. Embora de uma inteligência muitíssimo superior à nossa, não é por isso, como Deus, omnisciente, isto é, conhecedor perfeito de tudo o que existe ou possa vir a existir. Mas insistimos, a sua capacidade cognitiva é profundamente mais possante do que a do ser humano.

Contudo, não pode penetrar na nossa intimidade sem que nós o autorizemos. Isto não significa que não tenha sobre o seu protegido um conhecimento objectivo, mesmo que este se recuse a dialogar com ele, ou, de forma acintosa, a receber os seus conselhos.

O mesmo acontece com Nossa Senhora, que desde o Calvário, acedendo à proposta que o seu Filho Jesus lhe faz na pessoa de João Evangelista, aceita assumir a maternidade deste apóstolo e de todos os homens. O fito de Cristo é que a Virgem Santíssima, Mãe de Deus na sua Pessoa, passe a tratar com o mesmo carinho maternal – que Ele tanto estimava e reconhecia ter recebido de Maria –, todos os homens, por quem ofereceu a sua vida na Cruz. Ela também não pode entrar sorrateiramente na minha alma e descobrir todos os seus recantos, sem que eu colabore. Como, aliás, a nossa própria mãe. Conhecia-nos, como costuma dizer-se, de “ginjeira”, atenta ao mais pequeno pormenor. Quem não se recorda, na sua infância, por exemplo, depois de fazer uma asneira, tentar escondê-la e ser surpreendido pela mãe, que lhe perguntava. “Filho, o que te aconteceu?” Ou: “Porque é que fizeste esse disparate?”

Voltando ao nosso anjo da guarda, não nos resta senão reconhecer que a sua existência (a Igreja assim nos ensina claramente), se deve, por um lado, ao amor que Deus nos dispensa e, por outro, ao seu sentido de responsabilidade: não poupa qualquer esforço para nos ajudar a entrar no Reino dos Céus: “Cada fiel tem a seu lado um anjo como protector e pastor para o guiar na vida” (S. Basílio, C. Eunómio III, I: PG 29, 6565B). Desde este mundo, a vida cristã participa, pela fé, na sociedade bem-aventurada, dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (Catecismo da Igreja Católica, n. 336).

Para corresponder a esta generosíssima diligência divina, é nossa obrigação aproveitá-la da melhor maneira. Para tanto, procuremos que o anjo da guarda não seja transformado por nós numa espécie de objecto decorativo, que estimamos qual antiguidade valiosa existente lá em casa. Pelo contrário, tratemo-lo, como devemos, a um amigo verdadeiro, fruto da misericórdia do nosso criador. Dialoguemos com ele, explicando-lhe as nossas dificuldades e pedindo a sua ajuda na luta que cada um deve viver e, por vezes, sofrer, para nos santificarmos, isto é, para fazer a vontade de Deus. Pensemos na alegria que lhe damos ao solicitar a sua ajuda. A um amigo não pode tratar-se como um ser estranho, ou como a alguém a quem não damos atenção. É uma injustiça e um desperdício de um meio de que Deus se serve e nos proporciona para podermos, um dia, encontrar-nos com Ele na eternidade para sempre.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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4 outubro 2020