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Angola país inesquecível e ataque imprevisto

Após o 25 de abril de 1974 viveram-se momentos difíceis nas ex-colónias portuguesas, por motivos de natureza política, direcionada para a independência, após a implantação da democracia em Portugal, que permitiu reverter o caminho seguido pelo Estado Novo.

A partir da segunda grande guerra mundial, era mais que evidente a independência de todas as colónias africanas governadas por países europeus.

Em Angola começou a verificar-se uma grande instabilidade a partir da década de setenta, assim como nas outras colónias portuguesas, pois não estava prevista esta situação, e Portugal não preparou antecipadamente um plano bem estruturado para uma passagem progressiva da governação dos órgãos locais, de forma a evitar guerrilhas entre os movimentos de libertação e os portugueses residentes ou de outros países, o que originou acontecimentos imprevisíveis, ainda com a presença do exército português e posteriormente.

Em Angola, pós-independência, destacam-se três movimentos de libertação – MPLA (1960), FNLA (1960) e UNITA (1966) –, que originaram ataques, com terríveis massacres e também guerrilhas e confrontos, que provocaram profundos danos ao país colonizado, cujo desenvolvimento económico era notável, citando-se como exemplo a cidade de Luanda, com um desenvolvimento ao tempo, equivalente a São Paulo, no Brasil.

Houve regiões de Angola mais afetadas do que outras pela disputa da liderança do país, destacando-se o MPLA e a UNITA, que passaram a controlar diversas regiões de Angola, apoiados por material bélico provindo de diversos países, Estados Unidos, China e União Soviética ou ainda através de recurso ao petróleo pelo MPLA e aos diamantes de “sangue” pela UNITA, estes explorados na bacia hidrográfica do rio Kwango, para investir em equipamento militar.

O MPLA dominou a Província da Lunda, no nordeste de Angola, mas com raro recurso ao garimpo diamantífero, pois a Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), manteve-se na exploração até 3 de dezembro de 1977, onde ainda se vivia com certa segurança, pois era uma empresa de cariz fortemente social, a nível mundial com formação dos alóctones, com promoção dos recursos humanos e já com liderança, mantendo um bom relacionamento com a população quioca, prestando serviços em diversas áreas, tais como a educação, o melhor serviço de saúde em Angola e o desenvolvimento agropecuário, sendo de salientar as cantinas de compra e venda da produção local, espalhadas por toda a área diamantífera.

Esta situação não impediu a penetração esporádica de grupos de guerrilheiros da UNITA, que provocavam por vezes alguma insegurança aos quiocos e aos portugueses ao serviço da Companhia.

É de referir um ataque ocorrido em fins de 1976, ocasionado por infiltrações de guerrilheiros da UNITA, em Vila Paiva de Andrade (N’zargi), onde se localizava a Central de Recolha e Escolha dos diamantes, vindos das diversas minas ainda em exploração.

Nesta central havia o tratamento dos concentrados com diamantes e sua escolha, vindos das minas, dispersas por todo o território. Seguidamente, havia uma pré-seleção das pedras preciosas, para seguirem mensalmente para Lisboa, onde eram classificadas e avaliadas antes de seguirem para a Central Selling Organization (CSO), em Londres, liderado pela família judia Oppenheimer.

O transporte era feito de Luanda por via aérea, num avião Cessna bimotor, que saía do hangar do aeroporto do Dundo, sede da Administração, com piloto, copiloto, Diretor de Segurança e um membro da Direção.

Coube a nós nesse mês partir do Dundo para aterrar em N’zargi, recolher os diamantes devidamente separados e dentro de embalagens lacradas, para seguirem para o Banco de Angola e daqui para Lisboa, via TAP, com destino à rua dos Fanqueiros, onde se situava o Centro de Classificação e Avaliação dos diamantes da Diamang.

Nesse dia quando o piloto se preparava para aterrar no aeroporto de N’zargi, guerrilheiros da UNITA escondidos no capim ao longo da pista, metralharam o avião e o piloto muito experiente imediatamente borregou o avião, retornando ao Dundo.

Ao aterrar no Aeroporto de Dundo, com grande espanto nosso, verificou-se que nenhuma bala atingiu o avião.

Este acontecimento traduz um dos momentos difíceis e imprevisíveis vividos ao tempo, e frequentes em situações adversas, mas felizmente algo esteve ao nosso lado como noutras ocasiões similares, mas não impeditivas de prosseguir a caminhada da missão que nos foi confiada e que sempre cumprimos ao serviço de Angola e de Portugal.


Autor: Bernardo Reis
DM

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27 março 2022