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«Amai», não «armai»!

Penamos em tempo de seca. Ou, melhor, de «secas». E todas elas são «secas severas», desventuradas, nefandas.

Há uma prolongada «seca de água». Mas também estamos perante uma (cruelmente) duradoura «seca de paz, de justiça e de compaixão».

Todos lastimamos a falta de água nos solos. Mas todos acabamos também por sofrer com a ausência de paz, de justiça e de compaixão no mundo.

Neste Inverno praticamente não choveu. Valter Hugo Mãe aponta uma explicação que, não sendo científica, é luminosa, muito bela e comovente. «Ando a suspeitar – confessa o escritor – que este Inverno não chove porque bastam as lágrimas por tantas dores».

São, de facto, imensas as dores que, há anos, têm feito «chover» lágrimas numa contínua invernia.

As visitas que não se fizeram, as despedidas que ficaram por fazer e as armas que sibilam pelos ares juncam a alma com uma «chuva de feridas» sem fim.

Eis, entretanto, que – ainda timoratos ante as sequelas da COVID – somos massacrados com uma aflitiva «seca de paz».

De novo, soam os alarmes flamejantes da ambição insaciável que não hesita em degolar vidas para consolidar o poder.

Os ouvidos de grande parte da humanidade parecem ter ensurdecido.

O Mestre universal não Se cansa de repetir: «Amai» (cf. Jo 13, 34; 15, 12; Mt 5, 44; Lc 6, 35), mas há quem prefira ouvir: «Armai».

E é assim que as pessoas «armam-se» mais do que «amam».

Não falta até quem cometa o (supremo) topete de denominar «forças de paz» às hostes que não cessam de olear focos de violência e expandir sementes de medo.

Os interesses empoderam. Os poderosos decidem. E os inocentes sofrem, gemem e vão morrendo. Também falta «chover justiça e compaixão».

Não é só o «barril do petróleo» que sobe de preço. Há outro barril a explodir: o «barril do ódio».

Está o mundo a tornar-se um lugar inviável? Não podemos continuar em «seca de Deus».

Ele quer «chover». E, como assinalou Miguel de Unamuno, «quando Deus quiser chover na tua vida, deixa chover».

Neste arranque da Quaresma, façamo-nos ao caminho, aos caminhos novos abertos por Jesus.

Em ligação com o Natal, fixemo-nos nos Magos. E, como entreviu São João Crisóstomo, notemos que «eles não se puseram a caminho porque viram a Estrela; antes viram a Estrela porque se puseram a caminho».

Muitos conflitos são «premidos» por dirigentes «sentados» no seu egocentrismo desmedido.

Se todos nos fizermos ao caminho, veremos que a Estrela está ao alcance de um olhar de paz. Que faz do outro meu irmão. Nunca meu adversário ou inimigo!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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1 março 2022