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Ainda não estou em mim…

nem jamais em mim estarei. Foi contigo, Mãe, que sempre estive. É contigo, Mãe, que continuarei a estar!

Nunca me deixaste, nunca te deixei.

Por isso, não partiste só. E, no fundo, não me deixaste só. Deixaste-me tudo de ti e levaste tudo de mim.

Foi contigo que mais aprendi. Foi de ti que o melhor recebi.

É, sem dúvida, doloroso este momento sentir. Mas foi ainda mais ditoso a tua vida poder repartir.

Não foram apenas muitos os anos na tua companhia. Foram igualmente todos os meses desses anos, todos os dias desses meses, todas as horas desses dias.

Nunca nos cansamos um do outro. A nossa maior alegria era estar um com o outro.

Ao passar pelo teu féretro, tantos rumorejaram: «Como está linda a sua Mãe»!

É verdade. A minha Mãe estava linda: «linda de morrer», linda até morrer, linda mesmo depois de morrer.

Minha Mãe foi sempre linda. Tinha um rosto lindo, uma alma linda, um aprumo lindo.

Teve, pois, uma vida linda, embora também sofrida e, por vezes, magoada. Como não havia de ter uma morte linda, ainda que portadora de estremecimento e pranto?

Nos tempos mais recentes, temi que qualquer dia pudesse ser o último, tal era a fragilidade que lhe via e a ansiedade que me invadia.

Curiosamente, no último dia parecia revigorada. Ela, que já pouco falava, falou. Ou, melhor, rezou. Ao chegar o meio-dia, recitou o Ângelus, almoçou, adormeceu e… adormeceu: adormeceu no leito e «adormeceu no Senhor».

Quando por Ela chamei, não mais respondeu. Acabava de partir em paz como em paz sempre viveu: com o Terço na mão e imenso amor no coração.

Partiu fragilizada. Mas, acima tudo, muito acarinhada, muito afeiçoada, muito amada. O seu lar foi a sua casa, a casinha que me pediu para adquirir, a fim de que – palavras dela – «eu possa arranjá-la antes de partir».

Nenhum cuidado lhe faltou e um infinito afecto a rodeou. Muitos foram os «anjinhos» que, em forma humana, a envolveram. E que se deliciavam com a candura dos seus gestos.

Enquanto conseguiu mover-se, fazia questão de beijar todos os santos que encontrava pelos corredores. Mas não só. Até o burrinho e a vaquinha, que ladeavam a imagem do Menino Jesus, eram por ela beijados.

Foste tu, Mãe, que me geraste – e gestaste – para a vida, para a fé e até para a missão.

Foste tu, Mãe, quem mais belamente me mostrou Jesus. Outros me apontaram «o amor da ciência». Mas tu convenceste-me com a «ciência do amor». O meu modelo de padre foi sempre a santa que tive ao meu lado: tu!

Nunca sairás de mim. Mas não escondo o quanto vai custar aprender a viver sem ti… aqui!

Por agora, deixem-me ser fraco. Deixem-me chorar. Deixem-me «sepultar» a minha Mãe nas minhas lagrimas de dor, de saudade e de infinito amor. A Deus, Mãe!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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22 março 2022