twitter

A vocação do Bernardo

1. Um dos problemas com que os jovens se confrontam é o da decisão a tomar relativamente ao futuro. Apresentam-se-lhes diversas alternativas. Uma lista de variados cursos. Penso não estar enganado se disser que, no elenco de escolhas, raríssimas vezes consta um curso de Teologia tendo em vista a ordenação sacerdotal. No entanto, este é uma forma de a pessoa se realizar.

Ando a ler uma biografia de Carlos de Foucauld. Um indivíduo com muitas capacidades e, a partir do falecimento do avô materno, senhor de uma considerável fortuna. Ensaiou diversos caminhos. Aquele em que se realizou foi o do sacerdócio, vivido como pobre entre os mais pobres, como irmão universal.

2. Mas proponho-me falar do Venerável Bernardo de Vasconcelos. Também ele encetou diversos caminhos. O que mais o seduziu foi o do sacerdócio ministerial

Partiu sem ter concretizado o grande sonho. Recebeu apenas as ao tempo chamadas prima tonsura e ordens menores. A terrível doença que lhe sobreveio – o mal de Pott – impediu-o de prosseguir. Viveu então, cristamente, o sofrimento, oferecendo-o pela restauração da Ordem Beneditina em Portugal com toda a sua pujança.

3. A decisão de ser ordenado sacerdote aconteceu quando, em Coimbra, frequentava a Faculdade de Direito. Antes tinha pensado matricular-se na Escola Naval, o que não conseguiu já por problemas de saúde. Chegou a trabalhar num estabelecimento bancário, no Porto. Viveu a ideia de que a sua vocação era o matrimónio, pelo que namorou durante cerca de um ano com aquela a quem chamava Noiva-Irmã. Concluiu, depois, ser o sacerdócio o seu caminho. E «desde que me abandonei à ideia de ir para sacerdote, nunca mais senti dúvidas na minha vocação», escrevia em 07 de dezembro de 1923.

Hesitou entre ingressar na Companhia de Jesus ou na Ordem Beneditina, mas decidiu-se por esta.

Em 26 de maio deixou Coimbra. A despedida que os amigos lhe fizeram na Estação Velha não deixou de impressionar vivamente quantos a presenciaram, um dos quais foi o escritor António Sardinha.

4. Iniciou em Samos, na Galiza, em outubro de 1925, os estudos de Filosofia e de História da Igreja, e depois também de Grego. Daqui foi para a Bélgica, a fim de cursar Teologia na Abadia beneditina do Mont César (Lovaina). Acometido pelo referido mal de Pott regressou a Portugal, onde prosseguiu os estudos, sempre com a ideia de vir a ser ordenado sacerdote, o que não conseguiu.

5. Na caminhada de Bernardo de Vasconcelos muitas coisas influíram, a começar pela educação recebida na casa de família. Marcou-o um retiro feito no Luso, onde se impôs um exigente programa de vida. Muito influíram nele a frequência dos sacramentos. Comungava diariamente.

Importantes foram as conversas com o P. Lopes de Melo e a direção espiritual que tinha com o P. Manuel Gonçalves Cerejeira (então professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) com quem, a partir de certa altura, passou a confessar-se semanalmente.

«Falar-me na Sé Velha, escreveu já monge, em 16 de novembro de 1931, é recordar-me horas deliciosas, já porque lá passei junto ao Sacrário as melhores horas do ensaiar do voo para o claustro».

6. Somos, na Arquidiocese, um presbitério cada vez mais reduzido em número e avançado em idade. Este ano não tivemos nenhum novo sacerdote.

A próxima Jornada Mundial da Juventude, de que Bernardo é patrono e cujos preparativos decorrem, será, por certo, oportunidade para avivar nos jovens a consciência de que são Igreja e da missão que nela são chamados a desempenhar. De lhes lembrar que uma forma de se realizarem e servirem a comunidade também é o sacerdócio ministerial.

Respeitando a liberdade das pessoas; não o impondo; um dos caminhos a apresentar aos jovens não será o do referido sacerdócio ministerial?

Estou certo de que Deus continua a chamar, não apenas adolescentes mas também jovens maduros. Criemos ambiente para isso e saibam os chamados corresponder.


Autor: Silva Araújo
DM

DM

25 agosto 2022