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A vaidade na política

Quem trabalha na política, como quem trabalha numa qualquer outra actividade, deve ser sério e exemplar, seguindo princípios éticos aceites pela sociedade ou pela organização onde está integrado. O que não é fácil, e na política, onde se vive ou morre em função dos votos, que dão ou retiram poder, tudo é mais complicado. Os políticos prometem muito – dependendo dos objectivos que pretendem – mas quase sempre falham no cumprimento das promessas, a maior parte das vezes nas de difícil ou impossível realização que sabiam, de resto, desde princípio, que assim seria. A necessidade dos votos fá-los exorbitar nos projectos e medidas apresentadas a sufrágio. Tudo se justifica pelo interesse do partido: a ganância de ser o mais votado, de ser o partido vencedor, a ganância do poder. É a vaidade na política.

Não faltam exemplos que exprimem a presunção ridícula de que se é mais do que outro, de que se tem competência para isto ou para aquilo, de que se tem uma posição maioritária, de que se tem autoridade para decidir determinado empreendimento, mesmo que isso seja incoerente, inconveniente, inoportuno ou mesmo errado de todo. Tudo isso são vaidades, pequenas ou grandes, que acabam por condicionar o futuro dos destinatários legítimos das decisões.

O Partido Socialista tem, actualmente, maioria absoluta no Parlamento, o que lhe permite fazer e desfazer, desde que seja legal, o que o Governo entender pertinente, ou as leis que os seus deputados com assento na Assembleia da República entenderem como convenientes, mesmo sem ouvir os cidadãos como seria razoável no caso das questões fracturantes, ainda mais quando não são sufragadas. Num regime democrático em que é provável, e saudável, haver alternância, o respeito pelo posicionamento da oposição seria de louvar, mas quase sempre não é considerada essa hipótese. No último Estado da Nação no Parlamento, o primeiro-ministro não respondeu a quase vinte questões colocadas pela oposição. Isso é vaidade. E presunção.

Quem governa é quem tem de decidir, isso é verdade, mas pode fazê-lo sempre ouvindo os demais partidos, no mínimo, os mais representativos. Tal não diminui em nada um governo, pelo contrário. Seria, com certeza, respeitado e louvado por isso mesmo. Julgo até que lhe conferiria um grau de simpatia superior pela população. Um governo não existe para defender interesses partidários, nem deste ou daquele cidadão, mas para assegurar os objectivos da população em geral e necessidades de todos, sejam favoráveis ou não à cor política no poder. Mas a vaidade dos responsáveis faz com que isso não aconteça.

Não é normal um ministro sobrepor-se à posição de um Governo e decidir à revelia de um Conselho de Ministros e, se isso acontecer, aquele membro do Governo estará a exorbitar, a exceder-se, a ostentar um poder que na realidade não tem. Estará, seguramente, a ser vaidoso. Por seu lado, um primeiro-ministro que, tendo dado uma instrução a um ministro – e este cumpre – e depois vem criticar o colaborador e tirar-lhe o tapete, pode ser muito bom político, até o melhor que possa ter existido até à altura, mas estará a ser vaidoso, estará a ostentar uma autoridade, que pode ser legal, mas que não tem nada de moral. A vaidade pode dar jeito, mas não é defensável, ainda mais em democracia.

O vaidoso olha-se muito ao espelho, simpatiza com o que é seu e acha os outros feios, desvalorizando o que possam ter de interessante ou importante. Deixa-se fascinar pelo reconhecimento da maioria dos vizinhos, mas aproveita-se das deficiências dos outros para justificar as suas próprias. Há dias, confrontado com a falta de nadadores-salvadores em algumas piscinas e praias fluviais, Ricardo Rio, Presidente da Câmara Municipal de Braga, respondeu: “É como nos médicos!” Recorde-se que o Governo justifica a crise por que passa o SNS com a falta de médicos disponíveis. Na publicação digital de onde retirei a inserção do Edil, Milocas Campos escreveu: “Que triste comentário, Sr. Presidente da Câmara”. E é. Na verdade, aquela resposta também é vaidade.


Autor: Luís Martins
DM

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2 agosto 2022