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A Ucrânia e a União Europeia

A UE teve em apenas dois anos duas grandes provas de vida e da sua raison d’être. Depois da instabilidade criada pelo Brexit, instalou-se em alguns setores a dúvida se a saída britânica da UE desencadearia uma sucessão de outros abandonos, até ao desmoronar fatídico. A primeira grande batalha vitoriosa deu-se com a resposta unitária e solidária na vacinação contra a Covid 19, em que os líderes dos países que a compõe, com manifestas diferenças ao nível de poder político económico e do pib per capita, foram capazes de cooperar humanitariamente de molde a que todos os seus cidadãos estivessem em pé de igualdade na toma das imunizações.

O segundo enfrentamento complexo continua em curso com a invasão da Ucrânia. É consensual que um dos grandes equívocos de Putin, senão o maior, foi o da previsão da reação da Europa à guerra que não declarou oficialmente, mas que está a empreender em território ucraniano. A expetativa de Putin seria a que a Europa ficaria dividida na sua resposta, considerando os diversos fatores na relação económica com a Rússia, uns países mais dependente que outros e que cada um agiria egoisticamente em conformidade com os seus interesses, como seria o caso da Alemanha que depende em cerca de 60% do gás russo e que, em geral, o ocidente estaria disposto a sacrificar a Ucrânia ou, pelo menos, a facilitar a entrega das regiões fronteiriças, próximo do que aconteceu em 2014 com a Crimeia, claudicando sob a ameaça da extensão da conquista de países pertencentes à Nato e que antes fizeram parte do Pacto de Varsóvia e do aumento do custo de vida resultantes da quebra na importação de produtos alimentares e da energia daquela região.

A posição que a UE e a Nato tomaram na escalada militar surpreendeu não só Putin e a sua elite, mas também os eurocéticos. A UE voltou a tomar resoluções unas, falando com a mesma voz, firme não só na condenação da agressão, mas também no apoio ao país vítima. E a sua liderança não escondeu que a população europeia também sofreria com isso, avisou que a energia e os consumíveis alimentares essenciais à vida aumentariam e, por essa via, diminuiria a capacidade para os adquirir. Mas o povo normalmente entende e dispõe-se a sacrifícios, se os mesmos lhe forem comunicados e explicados antecipadamente, com toda a transparência, como aconteceu in casu.

Pode até afirmar-se que o movimento de apoio aos ucranianos surgiu bottom – up, a indignação generalizada dos europeus à barbárie motivou os governantes para uma atitude ousada, retorquindo com pesadas sanções económicas direcionadas à oligarquia russa, enfraquecendo o agressor e que seguramente abalarão a curto prazo a estrutura económica russa e o próprio poder de Putin, sendo certo que a perceção quanto à capacidade militar da Rússia está fortemente diminuída com o pouco avanço das suas tropas, volvidos mais de um mês de confronto, o que, aliada à resistência das forças ucranianas e à admiração que vai crescendo em torno do presidente Zelensky, permitiu engrossar o tom que a Nato vem vocalizando. A alocução recente de Biden na Polónia, com uma voz poderosa que não se lhe conhecia, não deixou margem a ninguém, mesmo a Putin, para entender o desastre que seria para a Rússia tocar num centímetro que fosse do território integrante do Norte Atlântico.

A questão mais delicada é a qualidade do apoio que os países da Nato podem e devem prestar à pátria mártir. Zelensky insiste no apoio em armamento militar, tanques e aviões correspondentes a 1% do stock. O ocidente não quer declarar uma guerra à Rússia, pois lidar com uma ditadura com arsenal nuclear é perigosíssimo e as mães não estão preparadas para perder os filhos numa guerra longínqua. A solidariedade com os refugiados e o agravar das sanções económicas vem sendo a política. Do ponto de vista económico, aparentemente as consequências da guerra já foram absorvidas pelos mercados, as Bolsas respiram e o Banco de Portugal não mostra sinais de rever a projeção económica de crescimento do PIB em 4,9%, um dos melhores das últimas décadas.

O problema continua a residir no povo ucraniano, sacrificado ao hediondo, agoniando sob a opressão da crueldade. “A guerra atroz que foi infligida a muitos e que faz com que todos sofram, provoca em cada um o medo e a aflição”, discorreu sexta-feira passada o Papa Francisco. Esperança temos numa paz em breve, fruto da sua consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria.


Autor: Carlos Vilas Boas
DM

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30 março 2022