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A revolução da ternura – 91

Começa por afirmar a convicção de que «a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontro». Muitos parecem não acreditar que seja possível um futuro feliz. Tais temores só se poderão vencer se não nos fecharmos em nós próprios, pois que «a felicidade  só se experimenta como dom de harmonia de cada particular com o todo». Como aliás o sabe muito bem a ciência: todas as coisas existem em interacção contínua com as outras.

Acrescenta um segundo ponto: «Como seria belo se ao contínuo crescimento das inovações científicas e tecnológicas correspondesse também uma maior equidade e inclusão, ...se redescobríssemos as necessidades do irmão e da irmã que habitam ao meu lado. Como seria belo se a fraternidade não se reduzisse apenas a assistência social, mas se tornasse atitude de fundo nas escolhas, a nível político, económico, científico, na relação entre as pessoas, entre os povos e os países. Só uma educação para a fraternidade e a solidariedade concreta pode superar a 'cultura do descarte'... Os outros não são apenas estatística ou números: o outro tem um rosto, o 'tu' é sempre um rosto concreto, um irmão de quem tomar cuidado».

«A história do Bom Samaritano é a história da humanidade de hoje... Há muitas feridas provocadas pelo facto de no centro estar o dinheiro, as coisas, e não as pessoas». E como dizia Madre Teresa de Calcutá: 'não se pode amar senão gastando-se pessoalmente'. Mas poderá fazer-se ainda alguma coisa, dado o ambiente que se respira? « Graças a Deus, nenhum sistema pode anular a abertura ao bem, à compaixão, à capacidade de reagir ao mal que nasce do coração do homem». Isto porque cada um de nós é precioso e insubstituível aos olhos de Deus. «Para nós, cristãos, o futuro tem um nome: esperança. Ter esperança não significa ser optimistas ingénuos que ignoram os dramas da humanidade... A esperança é a porta aberta ao futuro».

A terceira palavra que o Papa dirigiu foi propor a revolução da ternura, pois basta uma só pessoa para haver esperança, a âncora do futuro. E quando a ter esperança não é apenas um, mas nós, então temos uma verdadeira revolução. É a revolução da ternura.

Que é a ternura?  É o amor que se faz vizinho e concreto, como o Bom Samaritano. É um movimento que parte do coração e chega aos olhos, aos ouvidos, às mãos. A ternura é usar os olhos para ver o outro; usar os ouvidos para ouvir o outro, para escutar o grito dos pequeninos e dos pobres, de quem teme o futuro; escutar também o grito silencioso da nossa casa comum, da terra contaminada e doente. A ternura significa usar as mãos e o coração para acariciar o outro. Para tomar conta dele. A ternura é a linguagem dos mais pequeninos, de quem tem necessidade do outro: uma criança conhece e afeiçoa-se ao pai e à mãe pelas carícias, o olhar, a voz, a ternura.

A ternura é abaixar-se como o faz um pai e uma mãe para dialogar com o filho. É abaixar-se  ao nível do outro. Também Deus se abaixou em Jesus para estar ao nosso nível. Foi também o caminho percorrido pelo Bom Samaritano. É o caminho de Jesus, que se abaixou, que atravessou toda a vida do homem com a linguagem concreta do amor.

Sim, a ternura foi o caminho percorrido pelos homens e mulheres mais corajosos e fortes. «A ternura não é fraqueza; é fortaleza. É o caminho da solidariedade e da humildade. Por isso: quanto mais alguém é poderoso, quanto mais as suas acções têm impacto sobre as pessoas, tanto mais é chamado a ser humilde. Porque, de contrário, o poder arruina-te e tu arruinarás os outros. Sem humildade e ternura, o poder embriaga e faz perder o equilíbrio, fazendo mal a si mesmo e aos outros. Ao invés: com humildade e um amor concreto, o poder – o mais alto, o mais forte – torna-se serviço e difunde o bem.

O futuro da humanidade não está apenas nas mãos dos políticos, dos grandes líderes e das grandes fábricas. Têm certamente uma responsabilidade enorme. Mas o futuro está sobretudo nas mãos das pessoas que reconhecem o outro como um 'tu', e a si mesmas como parte de um 'nós'».

Temos necessidade uns dos outros. Apostemos pela ternura e a humildade.


Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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6 maio 2017