twitter

A realidade dos números não engana

Um trabalho desenvolvido pelo Diário de Notícias revelou esta semana os números crus do que tem sido a progressiva degradação da participação militante das cidadãs e dos cidadãos na vida dos partidos políticos. Apenas 2 por cento do universo da população diz sim à participação e mesmo assim isso não significa sucesso para os objetivos de cada uma e de cada um na vida partidária.

As mudanças nos últimos 40 anos, no universo dos partidos, não foram nem eficientes nem eficazes, pelo contrário, desmotivou ainda mais o universo das portuguesas e dos portugueses que tem abandonado a militância ativa. Há vinte anos rondava os 5,8 por cento. Esta realidade associada a um progressivo envelhecimento dos aderentes e a uma maioritária presença masculina não augura nada de bom. Apesar do esforço de alguns partidos para rejuvenescerem os seus quadros, esta pretensão esbarra com a realidade dos números: a média de idades na militância dos partidos mais antigos anda entre os 50 e os 60 anos. Apesar das tentativas de captação como a Academia Socialista, a Universidade de Verão do PSD ou a Escola de Quadros do CDS, o esforço dos partidos não se traduz num aumento efetivo e condizente com as necessidades das forças políticas, apesar de, na nova militância, quer naqueles partidos, quer nos restantes, se verificar a presença de cidadãs e cidadãos mais qualificados. Um estudo agora revelado pela OCDE confirma o que tem sido uma tendência em muitos países e particularmente em Portugal onde há razões que justificam o afastamento as pessoas dos partidos. Intitulado “ Building trust to reiforce Democracy”, Elsa Pilichowski, Director of Public Governance, revela que são poucos os que vem oportunidades para participarem nas decisões políticas e metade dos inquiridos afirmam que o sistema político não os deixa ter uma palavra na hora da decisão. No caso português, há uma larga maioria que pensa assim, o que não surpreende. De volta ao estudo citado pelo DN, da autoria, entre outros, de Paula Espírito Santo e Marco Lisi, o trabalho demonstra não só a queda de militantes como a descida acentuada dos que são ativos. Em diferentes partidos, a diferença entre os que pagam quotas e os que exercem o seu direito de escolha dos líderes, é abismal. Por outro lado, as razões para que um cidadão seja militante são cada vez menos ideológicas e mais materiais se estivermos a falar de partidos de poder, mas tudo não passa de uma disponibilidade efémera quando as expectativas criadas saem defraudadas. Um outro estudo já aqui citado num artigo sobre a representatividade política, mostra a incapacidade dos partidos para terem espaços políticos abertos e disponíveis para o exercício da cidadania, o que não deixa de ser um paradoxo com a sua vontade de ver aumentado quer o número de quadros qualificados, quer de militantes. Mesmo entre aqueles que permanecem, a participação é tão ténue que continua a verificar-se em muitas eleições internas, o pagamento de quotas em massa por parte de dirigentes para que os militantes exerçam o seu voto. Não há varinhas mágicas para esta discrepância na vida dos partidos, quando, ao invés, de alterarem o seu modelo de governação e se apresentarem como facilitadores, atuam em sentido contrário e desenvolvem uma lógica de desconfiança e permanente vigilância de comportamento. Já escrevi e defendi que os partidos só têm a ganhar se se convencerem de que, enquanto organizações, devem ser espaços vivos, dinâmicos e interativos e isso passa pela queda do ferrolho que colocam à porta das suas sedes e pela sua capacidade de responder em tempo e de forma útil, às necessidades básicas da participação cidadã. A própria formação política de militantes e simpatizantes vistos como potenciais quadros, assenta em esquemas de conquista de poder, é pobre, ideologicamente insuficiente e muitas das vezes, coartada pela visão mesquinha dos seus dirigentes. Se fosse possível alterar esta postura, estaríamos muitos de nós disponíveis para irem tomar um café, ler um livro ou ver uma exposição na sede um partido, do mesmo modo que frequentamos um estabelecimento sem ter a chancela do compromisso como barreira à participação. Continuo a acreditar que é possível um Revolução tranquila na organização partidária e que um novo modelo de participação e de militância pode ser a solução para estancar a perigosa situação que hoje atinge de forma transversal a realidade dos partidos em Portugal e por consequências a Democracia.

 
Autor: Paulo Sousa
DM

DM

11 setembro 2022