Todos nós estamos certamente interessados em saber quais são as conclusões que vão tirar-se destas jornadas que estão a decorrer no Vaticano, sobre as quais a comunicação social mantém um interesse vivo e pormenorizado.
Provavelmente, nunca tantos jornalistas e homens da imprensa prestaram atenção tão pronunciada a um evento da Igreja, nem sequer se mostraram tão pressurosos em transmitir ao seu público o que está a acontecer. É de supor que quem se encarrega desta missão aja sempre com a melhor boa vontade de perceber o que se passa e quais são os objectivos da Igreja com esta iniciativa.
Para um crente, mais propriamente, para um fiel da Igreja, o momento é de alguma surpresa e até de um certo desencanto, quando lê notícias e se apercebe, por exemplo, de que as preocupações dos seus autores não parecem propriamente de pessoas calmas e objectivas, mas de alguém que se encontra numa espécie de um espectáculo exuberante e procura dele tirar o maior proveito sensacionalista, a fim de conquistar um público ávido de escândalos e de acontecimentos chocantes.
Valha a verdade: a Igreja reconhece o destempero do comportamento de alguns dos seus numerosos membros do clero. E pretende, com boa intenção e firmeza, procurar evitar que esses factos se repitam, ou, pelo menos, que o seu número seja profundamente reduzido. Seria de admirar que procedesse de outra forma, sem que com isso não estivesse a negar a sua própria missão.
Por este motivo, pouco importa que um católico indique que tais casos abusivos ocorrem com mais frequência noutras confissões religiosas, incluindo as cristãs, para nem sequer abordar as repetições de eventos congéneres no próprio seio das famílias naturais, ou de outras instituições de diversas índoles, como escolas desportivas, escolas do ensino público ou privado, etc.
Tudo isso é lamentável e a Igreja não pode fechar os olhos perante tais situações, mas o que a ocupa, neste momento, com a coragem de quem está acostumada a pedir perdão quando erra, é o que ocorre dentro de si mesma. Para tanto, reuniu um grande número dos seus principais responsáveis para, sem paliativos e temores, reconhecer o que está mal e tomar medidas apropriadas e corajosas.
Não sei se tem sido esta a finalidade fundamental de todos os meios de comunicação social. Por vezes, parece que não. E que a única realidade que os interessa é chafurdar na lama e tornar universal ou costumeiro o que é apenas acidental e muito esporádico no ambiente eclesiástico.
Mas a Igreja vai mais longe. Sujeita-se a este tratamento injusto, tentando solucionar, quanto de si depende, situações aberrantes que não têm nada de apelativo para quem deseja conhecer melhor o que ensina e defende por vontade e mandato de Cristo.
Todos ficámos chocados com os episódios que as vítimas nos contam. E é obrigação dum fiel da Igreja fazer o que deve: pedir a Deus, com toda a alma, que tais situações dum passado mais ou menos próximo, ou mais ou menos longínquo, não perturbem a sua personalidade e o seu equilíbrio psicológico e possam fazer uma vida normal.
E para com um infractor? Para alguns, se existisse a pena de morte, era o chamado “remédio santo”. Mas convém não esquecer que quem erra e quem pratica tais acções pérfidas, nojentas e revoltantes, continua a ser filho de Deus e que a ele se aplicam, apesar de todos os constrangimentos que possamos sentir, as palavras de Cristo, que são de Quem perdoa até setenta vezes sete: “Há mais alegria nos céus por um pecador que se arrependa do que por noventa e nove justos que não necessitam de penitência”. Peçamos, pois, pelo seu arrependimento sincero e que tenha uma vida de verdadeiro penitente.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva