twitter

A propósito da Amoris Laetitia

Isto significa, da parte do fiel cristão, que procure compreender os outros até ao termo das possibilidades morais, deixando sempre claro que há uma fronteira inultrapassável, que é a de confundir o bem com o mal, ou, se quisermos, aprovar todas as situações negativas e imorais, como se fossem virtuosas e dignas de louvor. Tudo isto requer paciência, compreensão e afabilidade. 

Escrevo estas linhas na véspera da solenidade do Sagrado Coração de Jesus. E é uma boa referência recordar que o Senhor nos disse que devíamos aprender com Ele a ter um coração manso e humilde, pois só quando o nosso coração manifesta essas características ou qualidades, é capaz de não se enervar de forma ostensiva e injusta com o modo de ser dos outros, que têm o direito de ser diferentes de nós, acatar com serenidade as suas perspectivas que se opõem aos nossos pareceres e abraçar as contrariedades que a vida nos apresenta, por vezes com dureza, procurando superá-las com fortaleza e decisão. A soberba conduz-nos à irritação e ao desalento, deixando-nos entregues a horizontes de inoperância e de lamentação improdutiva.

Perante a conduta alheia enfrentemo-la com  cuidado delicado ao julgá-la. Nada mais fácil do que atribuir a quem não sou eu um defeito ou uma má conduta, esquecendo-nos, por vezes, que as “aparências iludem”. Nem sempre o que parece é e nem sempre o que é nos parece ser assim. Os nossos juízos, com frequência, enfermam da marca da subjectividade pessoal e esta conduz-nos facilmente a apreciações que não correspondem à verdade. Não são objectivas, porque nelas intrometemos traços de que a nossa sensibilidade não consegue libertar-se.  

E esta situação pode ser inconsciente, quando é fruto, por exemplo, de uma precipitação ao julgar ou de uma convicção algo orgulhosa de que “já vimos muito na vida ”, pelo que sobre a conduta em causa “está tudo dito” e não há outra hipótese que não seja a que aí se afirma. Ou de maneira consciente – e então encontramo-nos perante uma conduta moral mais grave –, já que os tons e as cores com que pintamos a tela do nosso juízo são as que nós quisemos escolher e não as que a tela devia ou podia realmente apresentar.

Chama-nos a atenção o Papa Francisco para a necessidade de sermos compreensivos até aos limites do que é possível moralmente. Não querendo com esta amplidão de caridade aprovar ou apoiar condutas e situações morais inaceitáveis. Assim é para com cada um de nós a misericórdia divina, que não perdoa apenas até sete vezes, como arriscava S. Pedro ao propô-la como hipótese generosa a Jesus, mas até setenta vezes sete. Entre uma e outra probabilidade de perdão a distância é abissal. E assim deve ser também a nossa compreensão com as pessoas, lembrando que o Senhor, para que não fôssemos superficiais e exacerbados na relação com os outros, nos lembra que o “justo peca sete vezes por dia”. E serei eu, exacta e inapelavemente, um “justo”?

Isto não é um convite do Santo Padre a abraçar o que não é um bem, ou a fechar os olhos perante o que é objectivamente um mal moral. Mas de tentar não pôr barreiras definitivas a  quem vive numa circunstância ética incorrecta. Também este necessita da nossa compreensão e ajuda para chegar à conversão.

O Papa Francisco não pretende que eu, perante um carteirista exímio, o anime a prosseguir na sua via de furtos. A imoralidade dos seus actos não tem desculpa nem conserto. Caso contrário, seria lícita e até compreensível esta observação: “Pode continuar a sua actuação tão perfeita e subtil. Tem toda a minha compreensão… desde que poupe a minha carteira...”.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

DM

24 junho 2017