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A primeira pedra

1. Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra, disse Jesus aos que lhe apresentaram uma mulher surpreendida em flagrante adultério, desejosos de a verem morta à pedrada (João 8, 1-11).

2. Sempre achei estranho o facto de, afirmando-se ter a mulher sido surpreendida em flagrante adultério, se exigir a condenação da adúltera ignorando a situação do adúltero. Ou a mulher terá praticado adultério sozinha?

A invocada Lei de Moisés, quer no Levítico (20, 10) quer no Deuteronómio (22, 22-24), era clara: aplicava-se o mesmo castigo aos dois.

Não é de agora, como se vê, o facto de, perante situações semelhantes, se utilizarem dois pesos e duas medidas: extremo rigor para uns e excessiva brandura para outros. Intransigência com a mulher e tolerância em relação ao homem.

3. Face à persistência dos acusadores, Jesus, que escrevia no chão, lança esta resposta desafiadora: «quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra».

Ao ouvirem isto, diz o texto bíblico, os acusadores foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos.

O que escreveu Jesus no chão?

Não se sabe. Alguém aventou a hipótese de ter escrito os pecados de quantos acusavam a pecadora, exigindo a sua lapidação.

4. Recordo a sabedoria popular que exprimiu de forma muito simples uma ideia semelhante à resposta de Jesus:

Quem tiver telhas de vidro

não deve atirar pedradas.

Eu fui atirar às vossas,

achei as minhas quebradas.

É muito fácil apontar aos outros o dedo acusador. É fácil exigir a condenação dos outros, como fez David, indignado contra o rico que se apoderou da ovelhinha do pobre. Mas quando ouviu de Natan: «esse homem és tu», o caso mudou de figura (2 Samuel, 12,1-15).

Ao acusar os outros pode acontecer de se voltar o feitiço contra o feiticeiro. Isto de cuspir para o ar…

Há quem não possua autoridade moral para fazer certas acusações. É como exigir justiça social pagando salários de miséria.

5. Abundam pretensos historiadores e biógrafos. Acontece de alguns, em lugar de narrarem a verdade, narrarem só a verdade que lhes convém. Tudo o que dizem é verdade (às vezes com a sua dose de exagero), mas há outras verdades que não trazem a público. E assim apresentam, habilidosa e falsamente, cobardolas e heróis.

Há interesseiros construtores de imagem que, de harmonia com as próprias conveniências ou segundo os interesses de quem lhes encomendou o trabalho, traçam falsos perfis. Se a pessoa de quem constroem a imagem lhes é simpática, só narram acontecimentos que lhe são favoráveis, às vezes utilizando vidros de aumento. Se, pelo contrário, se trata de elaborarem o perfil de alguém que detestam, limitam-se à narração de factos comprometedores, às vezes até carregando nas tintas.

Mesmo prescindindo dos tais exageros, em ambos os casos são capazes de afirmarem a pé junto não terem mentido. Tudo o que disseram, garantem, é verdade. Simplesmente, é uma verdade habilidosamente selecionada. Nuns casos, omitem os factos negativos; noutros, escondem os positivos.

6. Lembro-me de um dia, estando a Redação do «Diário do Minho» na Rua de Santa Margarida, me ter aparecido um senhor a oferecer colaboração. Depois de uns minutos de conversa disse-me escrever para outras publicações de índole regional. Antes de fazer uma reportagem, advertiu, perguntava sempre ao diretor: quer que diga bem ou que diga mal?

Despedi-o educadamente, dizendo que, se um dia viesse a recorrer aos seus serviços, não queria que dissesse bem nem que dissesse mal. Que dissesse, simplesmente, a verdade. Era isso, e só isso, o que me interessava.

Claro que o senhor em causa, que eu saiba, nunca escreveu para o «Diário do Minho».

7. A missão do informador não é fazer fretes a este ou àquele, mas simplesmente informar com o máximo de verdade e de isenção.

Que os construtores de perfis não apresentem com olhos brilhantes um indivíduo que de facto é ou era zarolho.


Autor: Silva Araújo
DM

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18 agosto 2022