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A guerra voltou à Europa

Nestes últimos dias, todo o mundo e, em particular a Europa, voltou a viver com intensidade e surpresa um clima de guerra. Em causa, a invasão da Rússia na Ucrânia, que ainda não sabemos bem se vai resultar num triunfo espectacular para quem manda no país invasor – o maior do mundo em extensão. Ele foi, durante várias décadas, dominado por um conjunto de ditadores que se sucederam, sob a protecção da ideologia comunista, até que, por fim, já próximo dos nossos dias, o regime que os amparava se foi esboroando por cansaço e velhice dos seus membros.

No entanto, a Rússia sempre foi um país que, historicamente, dominou povos e regiões, conseguindo, habitualmente através dum governo bastante cioso do seu poder, manter pela força as populações subjugadas. Em tais circunstâncias, a ideologia comunista encontrou nesse mundo uma espécie de paraíso para se instalar e, depois, com as potencialidades de quem, em nome do povo, tudo geria de forma única e indiscutível, impusesse as suas ordens com a energia de quem manda, de quem pode prender, exilar ou mesmo matar quem quer que fosse que se opusesse à hegemonia do partido. Quantas e quantas pessoas – milhões – foram sacrificadas por uma ideologia que se propõe realizar um mundo novo através duma ditadura do proletariado que, em princípio, sempre age em prol de todos, embora não consinta que alguém discorde das indicações de quem detém o poder. Quem manda, tudo o que determina executar é necessariamente virtuoso. Por isso, é necessário que ninguém se oponha às decisões tomadas, porque além de estar errado, impede o avanço miraculoso e salvador da revolução instalada.

Certamente que para tudo decorrer com ordem e sem oposições, é necessário que os próceres que dirigem o país o mantenham bem armado e dediquem à defesa dos interesses de quem detém o poder uma expressiva carga orçamental. Não interessa tanto satisfazer as necessidades do povo, mas de manter e proteger a elite que comanda os destinos a seu gosto. Por isso, também, se torna necessário a existência duma polícia bem estruturada, que espiolha até o pormenor as andanças dos cidadãos, as suas ideias e até as suas ambições, não vão estas contrapor-se ou ser um obstáculo incómodo e inadmissível às determinações indiscutíveis do poder instaurado. A nossa antiga PIDE, em relação às instituições semelhantes dos países comunistas, era uma espécie de caricatura ingénua e mal concebida.

Apesar de tudo, a maior parte dos regimes instalados por esta ideologia caíram de podres, porque o ser humano exige, pela sua natureza e dignidade, que a liberdade não seja um mito ou uma ideia longínqua, mas uma realidade que o acompanhe no seu quotidiano, para que ele possa viver sem ser coagido por uma parte – habitualmente pequena, mas muito poderosa – de cidadãos que detêm as rédeas da governação e as exercitam dum modo em que sabem que não podem ser criticados com vigor, porque todo o sistema ditatorial e policial que conseguiram montar, foi preparado para abafar qualquer divergência mais significativa. Deve governar, assim, com desenvoltura, porque tem consciência de que há uma protecção vigilante, que anula algum erro que se cometa. E, de modo algum, convém ao sistema instalado que se torne objecto de comentários contrários à ordem estabelecida com mão férrea e implacável.

A Rússia já não é a União Soviética, felizmente, mas o sistema directivo do actual detentor do poder político deste enorme país, formado, ao que parece, no regime comunista que viu morrer, conservou neste chefe político a ideia de que aquilo que lhe desagrada ou não convém deve ser dissipado sem hesitações. Para tanto, invadiu a Ucrânia com o seu exército. Curiosamente, houve no país que dirige já várias manifestações de bastantes pessoas contra esta decisão, que, como bom herdeiro do regime ditatorial anterior, fez serenar, pois contraria os seus propósitos e incomoda a paz do vasto território russo.

Há também medidas tomadas por diversos e importantes países, que visam a economia russa de forma dura e, oxalá, contundente. Alguém, já idoso, comentava com singeleza: “Onde é que isto vai parar?” Não sou um especialista na matéria, pelo que só posso lamentar a situação criada por um senhor poderoso, que vai causar muitas vítimas sem culpa alguma da sua parte. Inclusivamente, dos seus próprios soldados, a julgar por um comentário de uma senhora governante ucraniana, que explicou que era necessário retirar rapidamente do seu país os corpos de muitos soldados russos que já tinham sido postos fora de combate.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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4 março 2022