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A esperança

Às vezes, podem parecer-nos um pouco despropositadas as pessoas que, no meio da tragédia, se mantêm optimistas e nos vão mostrando o caminho da esperança em dias melhores. Mas, afinal, neste Verão trágico que nunca mais acaba, faltam-nos exemplos destes. Por outro lado, sobejam e cansam-nos os profetas da desgraça, os analistas de coisa nenhuma, os especialistas da culpa dos outros. Claro que todos precisamos de um tempo diferente para nos levantarmos do chão e continuar a calcorrear esse caminho que é, afinal, a nossa vida. Quando o quotidiano nos aflige, mais cedo ou mais tarde, havemos de procurar refúgio nessa réstia de luz que nos ilumina, quando parece que o mundo se fecha sobre nós. Bem sei que a esperança gosta de brincar connosco às escondidas. Também não é coisa de que se possa dispor do pé para a mão, não está disponível online nem se avia nas farmácias. Dá muito jeito que cada um de nós tenha a sua receita caseira, para fazer face aos imprevistos: meia dúzia de folhinhas de fé de um vaso na varanda, uma pitada do afecto de quem nos quer bem, um sorriso, qualquer coisa de belo, como uma música ou um poema. Para temperar tudo isto, nada como o entusiasmo das crianças… Desta vez, aproveitámos a sede de aventuras de fim-de-semana para rumar à nascente do rio Este. Um fiozinho de água, cansado, a escorrer para um tanque, a meia-dúzia de quilómetros da nossa cidade. Enquanto me distraía nestes pensamentos, o pai ensinou o pequeno a fazer um arco e flecha e lá se entretiveram a caçar algumas folhas secas e muitos pedaços de céu. No regresso a casa, fui surpreendida por dois poetas, empenhados em animar-me. Dizia Jorge Luís Borges: Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra haja música. O que descobre com prazer uma etimologia.O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. O que prefere que os outros tenham razão. Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo. Para o caso de isto não bastar, e o saquinho de esperança que tinha reservado estar vazio, dizia Ruy Belo: Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias. Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará.
Autor: Fernando Lobo Gonçalves
DM

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29 outubro 2017