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A criança e o caçador

No domingo dia 13 de janeiro de 2019 passeava eu e o meu filho de cinco anos à beira rio, neste caso particular no Cávado, praia fluvial de Navarra, Braga. Estava um dia excelente, luminoso, frio, de céu limpo azul-profundo, o Inverno na sua melhor roupagem – isto na minha opinião. Como qualquer criança desta idade o miúdo está apaixonado pela Natureza, sejam lagartixas, cães, pássaros, árvores, musgo, formigas, aranhas… encontra prazer em conhecer e experienciar tudo com que a natureza nos presenteia. Desde há uns anos a esta parte que tenho assistido a um aumento do número de animais que encontramos no Cávado, nomeadamente aves. Uma espécie de cegonhas cinzentas (Garça Real, acho eu) e também uma espécie de mergulhão negro (Corvo marinho, também não tenho a certeza). Era exactamente estas últimas que observávamos em pleno voo. Era um par e voavam lado a lado. Virei-me para o miúdo que estava de olhos postos nas aves e disse-lhe que possivelmente seria um macho e uma fêmea. Ficamos em silêncio a ver o voo das aves negras no céu límpido de Inverno. Sem qualquer género de aviso dois tiros de caçadeira ecoaram no paraíso… sem tempo ainda para pensar em alguma coisa, uma das aves começa a cair em espiral e a grande velocidade, terminando esse aéreo bailado de morte nas águas gélidas do Cávado. Miúdo e eu estupefactos olhamos um para o outro… A ave caiu apenas a uns metros de nós pelo que ainda foi possível ver o triste espectáculo de um animal baleado, ferido (ou já morto?) a ser levado pela corrente até ser engolido pelas águas mais profundas do rio. O meu filho voltou a olhar para mim à espera de algum tipo de explicação, de consolo, ou até com a fabulosa ingenuidade da infância, de uma espécie de magia que fizesse com que nada daquilo tivesse acontecido. Os seus olhos grandes e escuros estavam a ficar com aquelas lágrimas gordas que inevitavelmente caem como pedras no meu coração. O que dizer para o acalmar… não tive tempo de iniciar qualquer tentativa de consolo, pois logo de seguida apareceram na outra margem do rio uns cães de caudas no ar e latido fácil. Estavam bastante agitados à procura da malograda ave. Logo atrás um homem com uma espingarda na mão, breves segundos depois um segundo caçador. Cães e caçadores ficaram parados na margem do rio até tomarem consciência que a ave tinha caído na água; impossibilitando-os assim de recolherem o seu troféu (não seria nada mais que um mísero troféu, pois esta espécie de ave não se come e creio mesmo que é ilegal caçá-la… enfim, o domínio por parte de um coração egoísta). Deram por terminada a sua busca com um simples encolher de ombros, como quem diz “caiu na água, que se lixe, vamos é continuar…”. Desapareceram por entre os campos e bosques da outra margem do rio. Eu e o miúdo também fomos embora, o cru e sombrio espectáculo tinha chegado ao fim. A breve viagem de regresso a casa foi silenciosa, penosa… Já à noite, antes de dormir, o miúdo diz-me muito baixinho: “Papá, não consigo deixar de pensar naquilo…” tentei tranquilizá-lo com frases do género: “Se calhar o pássaro salvou-se” ou então, “os Homens hoje salvaram mais animais do que aqueles que mataram”, entre outras pequenas-grandes mentiras. Enfim, não havia muito mais a fazer do que abraçá-lo, afagá-lo até o sono chegar. Enquanto ele adormecia eu pesava na balança, num dos pratos: o caçador com o seu prazer, com o seu poder sobre a vida ou morte de outro ser; no outro: a ave baleada/morta e a pureza de uma criança com alma cristalina (agora irremediavelmente estilhaçada por dois tiros de caçadeira). Adivinhem lá para que lado pendeu a balança?
Autor: Simão Mota Leite
DM

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20 fevereiro 2019