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A cotovelada

Quando a pandemia covid-19 surgiu e os tradicionais apertos de mão se tornaram desaconselháveis, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, iniciou uma forma de cumprimento adaptada às novas circunstâncias: punha a mão direita sobre o coração e fazia uma ligeira inclinação de cabeça. Os hábitos e tradições mudam quase sempre forçados pelas circunstâncias. E a circunstância pandémica forçava um novo gesto protocolar de cumprimento e respeito pelo interlocutor, forçava a uma mudança na etiqueta social. Não era uma mudança pela mudança, pelo gosto do diferente – que, normalmente, se traduz em involução. Era uma mudança imposta pela pandemia e por ela inteiramente justificada. Uma «evolução». E a Presidente von der Leyen, prontamente, encontrou a solução num gesto civilizado: simples, gentil, elegante, claramente saído de uma sensibilidade feminina. E eficaz – as pessoas nem sequer se tocavam. Por isso gostei do gesto. Porque inovava a etiqueta europeia com dois sinais europeus – gentileza e respeito pelo outro. Uma inovação feliz. Foi, por isso, com triste surpresa que vi este gesto rapidamente cair em desuso em benefício de um outro – o da cotovelada. Que, com igual rapidez, se generalizou e… institucionalizou. Ao contrário do primeiro, é um gesto de sabor primitivo, boçal, grosseiro, macacóide mesmo. E, para além do mais, ridículo: as pessoas, em vez de se reverenciarem, acotovelam-se. Isto é: «descumprimentam-se». Ao princípio fiquei chocado. Mas depois, pensando melhor, «racionalizando», percebi que a nova forma é mais «moderna», mais «avançada», mais de acordo com a sociedade actual, enquanto a da senhora von der Leyen está bastante «demodée». Numa sociedade em que as boas-maneiras são consideradas «caretas»; em que o respeito pelos mais velhos é ignorado; em que a afabilidade é ridicularizada; em que a gentileza perante as mulheres é considerada machismo; onde se trata os desconhecidos por «você» e os homens pelo nome de baptismo; onde todos os meios são bons para se chegar ao fim pretendido; onde os honestos são iguais aos vigaristas e os trabalhadores aos preguiçosos; onde, enfim, o respeito caiu em desuso e, por isso, ninguém respeita ninguém – nessa sociedade faz todo o sentido que as pessoas se cumprimentem à cotovelada. A etiqueta social é um reflexo dos costumes. E o costume, agora, é as pessoas acotovelarem-se umas às outras.
Autor: M. Moura Pacheco
DM

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1 outubro 2020