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A convivência interacial, o racismo e a violência

Em diversos países do mundo têm surgido situações ligadas ao racismo, as quais podem ser consideradas e interpretadas de forma política e ética diferente, independentemente da etnia e da cor.

O racismo pode resultar de situações ligadas ao passado, principalmente num período escravista, com povos oriundos principalmente de África, na ocupação e desenvolvimento dos países da América do Norte e do Sul.

A globalização e a miscigenação começou a tomar grande expressão e forte incremento étnico e generalização após os grandes descobrimentos marítimos dos séculos XV-XVI, tendo contribuído para uma interligação cultural de usos e costumes, com vivências comunitárias diversificadas.

A convivência interacial acentuou-se ao longo de séculos com a imigração, onde os seus usos e costumes começaram a ser aceites e mantidos pelas comunidades dos países de acolhimento, dentro dos princípios de respeito mútuo e valores cultivados ancestralmente, com sentido consensual e aberto, não ultrapassando as políticas e doutrinas dos países acolhedores.

Muitas vezes dá-se especial atenção à cor negra, mas não é aí que reside essencialmente o racismo ou pseudoracismo, pois há outros povos onde existem situações idênticas e não se dá tanto impacto ou então não são referenciadas pela comunicação social ou pelos políticos.

O racismo, a descriminação humana e a violência não se direcionam só para os negros, mas vêm de há milénios, verificando-se entre povos e civilizações, embora possam atingir dimensões diferentes reportadas às épocas de certos acontecimentos históricos e quantas vezes não têm a ver com o racismo, mas servem para alertar ou evidenciar certas situações sociais de desigualdade como nos Estados Unidos, em que a riqueza se concentra em 1% da população e a votação eleitoral privilegia a classe rica.

O facto ocorrido ultimamente nos Estados Unidos com a morte violenta e de grande crueldade de George Floyd, independentemente de antecedentes, representa uma irresponsabilidade da atuação da autoridade pública, tendo provocado manifestações transversais na sua origem a diversos países, aproveitadas muitas vezes, por outras ideologias, para lançar o caos e a pilhagem e para realçar as desigualdades acentuadas e a pobreza.

Deu-se grande dimensão nos media a esta ocorrência, assim como os partidos da extrema esquerda ou direita se serviram para vincar as suas ideologias, aproveitamento político que pode contribuir para destruir a democracia plural ou condicionar a liberdade de expressão e o livre pensamento.

Porém, passam despercebidas ou ignoradas as grandes tragédias ocorrentes, principalmente em diversos países de África, nas lutas tribais ou interétnicas, com genocídios inenarráveis, provocando milhares e milhares de mortos ou de refugiados para outros países, com acolhimento imprevisível e passando a viver sem as mínimas condições de vida, para se salvar ou salvarem as suas famílias. Estas situações vivem-se atualmente na Síria, no Chade, na Nigéria, no Malawi e nos Camarões, onde são exterminadas parcialmente comunidades ou etnias, tendo em vista impor estados totalitários extremistas, como está a acontecer atualmente no norte de Moçambique (Cabo Delgado), atingindo populações indefesas em povoações onde sempre viveram, destruindo as habitações e os templos religiosos ecuménicos, assim como os edifícios onde se encontram instaladas as autoridades locais.

Servem-se de ideologias políticas para destruir monumentos que marcaram a história do mundo, independentemente da época, pois a história das civilizações, dos povos e dos obreiros da humanidade, jamais será apagada da história escrita através dos tempos, por vezes cíclica, mas que deve ter sempre sentido evolutivo e reformador.

Houve lutadores determinados contra o racismo no passado recente, na África do Sul e nos Estados Unidos, com destaque para dois grandes líderes da humanidade: Nelson Mandela e Luther King que, com a sua humildade, sofrimento humanístico indescritível e compreensão, deram e legaram marcas inesquecíveis como seres humanos de dimensão universal, de como se deve conviver em comunidade interacial.

O racismo também existiu e existe na miscigenação, salientando-se, no caso da África do Sul, a ação de Mohandas Ghandi, um líder incansável, lutando ali pelo seu povo, explorado e segregado ao tempo do “apartheid”.

Recorda-se um episódio passado em Kimberley, em 1967, quando ali se deslocou um grupo de assessores na área dos recursos naturais, constituído por sul-africanos, ingleses e portugueses, com alojamento num hotel.

A um deles foi inicialmente recusado alojamento pois, embora branco, mas muito moreno devido ao clima subtropical, foi considerado “colored man” e só após muita insistência dos colegas é que foi aceite o seu alojamento.

Isto e outros factos demonstram que o racismo, embora existente, também serve para impor ideologias ou obstar a que outros povos vivam em liberdade ou condicionados pela desigualdade económica e pela convivência intercomunitária.


Autor: Bernardo Reis
DM

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11 agosto 2020