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A contínua destruição da paisagem transmontana

  1. Desculpem repisar o assunto, mas…). Mas o assunto é de importância; e provavelmente a maioria nem leu o meu trabalho, aqui no DM, de 12-7-2022, intitulado “Novo parque eólico… e no melhor de Trás os Montes”. Aí, alertava eu para a séria ameaça de, a breve prazo, ir avante a contestadíssima erecção de (para começar…) 4 ou 5 grandes aero-geradores (ventoinhas eólicas) na parte oriental da super-paisagística serra dos Passos, Franco e Lamas de Orelhão; ao lado da qual corre a A24, no troço que liga Murça a Mirandela. E ao que parece, a ameaça está mesmo para se concretizar, ao fim de ca. de 15 anos de variadas resistências a mais este impactante e nada razoável projecto datado do tempo de J. Sócrates, hoje acusado de vários outros atropelos e delitos. Ao que parece até, a única resistência que faltava ultrapassar era o exacto montante de indemnização a atribuir à junta de freguesia de Lamas de Orelhão.

  2. O valor ecológico, paisagístico e simbólico do vasto vale do Tua e desta serra dos Passos e do Franco). Sem ofensa para os “alienígenas” visados. Mas é de referir que (embora haja quem tente alcançar essa “meta”), o nível cultural dos portugueses ainda não é tão limitado como o dos típicos moradores das ilhas Andaman, ou da Papua Nova-Guiné, ou do Sudão do Sul ou do vale do Ituri, no nordeste do Zaire. Para mais, desde 1999 a rede viária que liga o Porto, Braga, Guimarães, Famalicão (etc.) ao Nordeste, transmontano e alto-duriense melhorou radicalmente. E é indesculpável que minhotos e durienses desconheçam ou desprezem o valor do vasto território a leste das serras do Marão-Alvão-Padrela, que é vizinho deles. O dito território é uma “relíquia” (e limite, a NW) da paisagem e eco-sistemas mediterrânicos. O que, por si só já seria razão da sua preservação e respeito. Acontece que tal limite botânico é extraordinariamente valorizado por um “caos orográfico” de cabeços, cordilheiras, vales, desfiladeiros com dezenas de kms de extensão (Sabor, Tua, Tuela, Rabaçal, Angueira, Maçãs, Pinhão, Ferradosa, etc.). Que formam um padrão que não tem comparação em qualquer outro ponto de Portugal.

  3. Em França, Alemanha ou EUA, o nosso “Nordeste” daria um protegido “Parque Regional”). Esta protecção legal e “classificação” seriam muito mais vantajosas para a Economia local, do que (como tem acontecido) andar-se sem respeito, a encher a província de barragens e parques eólicos. E a substituir a pastorícia e os gados (ovino, caprino e até, bovino), os sobreiros, pinhais e azinhais por mono-culturas extensivas e geométricas, de pequenas oliveiras e amendoeiras (e até eucaliptos e cedros mexicanos, ditos “do Bussaco”).

  4. É certo que existe o Parque do Douro Internacional e o do Marão-Alvão). Este último, que inclui ou está perto de zonas infestadas de aero-geradores (ventoinhas), nem se sabe bem para que serve. O do Douro Internacional projecta (e bem) ser incluído numa futura “Reserva Mundial da Biosfera” (que inclui as provs. de Zamora e Salamanca); mas tem tido fogos-postos todos os anos (agora até também do lado leonês-castelhano). Há ainda essa “brincadeira de mau gosto” que foi o criar-se o Património Mundial do Douro “vinhateiro”. Ora vinhas, quase todos os países as têm; e a nível de socalcos, os das Filipinas e Indonésia são mais extensos que os do Douro. Daí que, o que havia a proteger no vale do Douro é o pouco que sobra (em matos, sobreiros e gigantescas fragas de granito ou de xisto); o que sobra da sua monumental paisagem, anterior à inocente mas destrutiva semente que o conde de Oeiras (marquês de Pombal) aí lançou, desastradamente, em meados do séc. XVIII. Semente vinícola, que tanto tem, isso sim, destruído a Natureza e beneficiado o Grande Capital estrangeiro.

  5. O brutal incêndio que destruiu em Julho a encosta duriense de Carrazeda de Ansiães). Foi dos maiores desastres ecológicos a atingir o norte de Portugal, nos últimos anos. Na região, da qual fez reportagem fotográfica a nossa chefe de redação Luísa Teresa Ribeiro (DM, 13-6-2022), ardeu o melhor, do ponto de vista botânico e paisagístico. Matos e penedos intocados onde eu próprio já avistei bandos de pintassilgos, pequenos picanços-barreteiros, cartaxos, gaviões, açores, um casal nidificante de falcões-peregrinos… Refiro-me à ímpar e remota ribeira da Ferradosa (que ardeu toda).

  6. Queimar a paisagem, para dar lugar a “empreendimentos”). Esta é a lógica, bem encoberta, de muitos dos fogos-postos. O que antes era belo e muito valioso, demorará anos a voltar ao que era (e o seu valor será até esquecido). Assim, serão mais fáceis novos parques eólicos, barragens, pedreiras. Deve ser o caso das eólicas na serra dos Passos e Franco. Que logo por azar fica mesmo no meio de T. os Montes e ao lado da A24… Uma serra que se vê de todos os ângulos. E cuja vista do lado de Valpaços (a norte) é emblemática, sagrada e uma das mais grandiosas de Portugal inteiro… Por isso, talvez, os grandes fogos-postos no norte da vizinha Murça; e de V. Pouca de Aguiar. E os que ainda forem precisos… E já agora: tanto zelo contra a poluição automóvel e nenhum contra o imenso carbono mandado para a atmosfera nestes fogos, muito superior?...


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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9 agosto 2022