twitter

A confiança nos media

Os franceses manifestam uma confiança cada vez menor nos media, apesar de terem um acrescido interesse em acompanhar a actualidade, revelou o barómetro anual do diário La Croix, divulgado na quinta-feira. O prestígio dos meios de comunicação social encontra-se no nível mais baixo desde que esta aferição se começou a realizar, em 1987. A televisão, que os franceses preferem para se informar, tem um nível de confiança de 38% (desceu 10% num ano); a rádio, habitualmente mais “fiável”, tem 50% (tinha 56% em 2017); e a imprensa escrita tem 44% (desceu 8%). Não foi preciso esperar pela publicitação destes resultados para que a autocrítica começasse. O Libération, na edição do passado fim-de-semana, dedicou a manchete e as seis páginas iniciais à inquirição dos erros jornalísticos, a revista Marianne escolheu como tema de capa da edição de quarta-feira “a falência do sistema mediático” e o suplemento Idées do diário Le Monde datado de ontem tinha como assunto principal a arqueologia da má reputação jornalística. Em Portugal, a autocrítica mediática é assaz escassa. Pode ser conveniente colocar em questão o trabalho jornalístico alheio, mas o próprio raramente deixa de ser considerado no limiar da perfeição. Repara-se no argueiro nos olhos dos outros sem se vislumbrar a trave nos próprios olhos. Há dias, na TVI, uma reportagem mencionava que era perniciosa a exibição pública de menores vítimas de conflitos familiares. Mas pouco se importava com o que referia, pois mostrava precisamente aquilo que, feito por outros, era considerado condenável. Insistia, de resto, no erro, exibindo o que não devia, de um modo gratuitamente repetitivo. Fazia-o com evidente cinismo ao ocultar a cara dos menores como se, com isso, se pudesse encobrir a identidade dos filhos de duas figuras tão sobejamente conhecidas. O programa no âmbito do qual a reportagem foi emitida, com amplo eco noutros espaços informativos do canal, é, aliás, reincidente no atropelo da boa deontologia jornalística. Recentemente, pretendeu implicar um dirigente partidário na eventual conduta errónea de um seu familiar, como se a culpa e a expiação de alguém tivessem de ser acarretadas pela família e pelos próximos. Antes, e também no mesmo programa, a TVI difundiu uma filmagem não consentida de conversas com uma psicóloga e com um padre sobre questões de foro privado. As gravações realizadas ou instigadas pelo interlocutor da psicóloga e do padre constituem um abuso de confiança que um módico de escrúpulo jornalístico impediria de divulgar. Nas circunstâncias mais variadas, não é difícil obter resultados pouco simpáticos à custa do aproveitamento de gravações inconvenientes. A própria TVI estaria em condições de o entender convenientemente, uma vez que, em Novembro do ano passado, a direcção de informação e outros departamentos da estação televisiva solicitaram a presença da Polícia Judiciária para identificar quem terá divulgado as imagens de uma discussão entre uma das jornalistas mais conhecidas da casa e o repórter de imagem que a acompanhava durante a cobertura da campanha eleitoral para as presidenciais brasileiras. A jornalista, que é também diretora-adjunta de Informação da TVI, mediu bem a gravidade da difusão ilícita ao referir, na sua conta no Instagram, a “gravidade de terem sido ‘roubadas’ imagens de uma conversa de trabalho normal”, se bem que o problema tenha sido não tanto o roubo da filmagem, mas a sua divulgação pública. Se se entende que a exibição de “uma conversa de trabalho normal” é um assunto da esfera de competência da Polícia Judiciária, não teria sido difícil perceber que usar câmaras escondidas para gravar conversas íntimas não é matéria para proveito jornalístico. A não ser que o objectivo seja mostrar a actualidade de Honoré de Balzac que, citado pelo diário Le Monde, disse que “o jornalismo é uma grande catapulta accionada pelos pequenos ódios”. Ainda que não apenas imputáveis a um programa, a um canal televisivo ou à televisão em geral, os atropelos ao bom jornalismo oferecem sempre rentáveis argumentos aos que mais beneficiam com o afundamento dos prestígio dos media.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
DM

DM

27 janeiro 2019