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A Cápsula do Tempo em Braga

São 17 mil e 500 dias. Uma eternidade quando se olha para os números e um mero ponto na nossa história comum. Contudo, traduzido em anos e em significado para a nossa vida comum, falamos do tempo que vivemos em Democracia que superará, no próximo dia 24, essa risquita ditatorial que permaneceu em Portugal, entre 1926 e 1974. Falar da Cápsula do Tempo é falar de memória individual e coletiva- seja no plano nacional, regional ou local- e disso se trata quando arrancar em Lisboa, o programa oficial das comemorações dos 50anos da Democracia portuguesa. Um dia em que se combinam vozes e predileções combinadas na dupla função de nos lembrar o que eramos, o que fomos mudando, o que somos hoje e o que queremos ser amanhã. Um país sem memória não existe, uma cidade sem memória tem um lugar obscuro na história e isso, tenho a certeza, ninguém perdoará, caso falhe a nossa capacidade comum para a perpetuar. Há muito tempo que Braga reclama para si, um Museu da Memória, da sua história de tempos e lugares, de fazedores e de oráculos presentes nas infraestruturas do pensamento e da ação. Até hoje, não fomos capazes de fazê-lo; espera-se que SIM, o saibamos fazer em tempo útil, em nome da identidade e do futuro. É precisamente o futuro que nos exige mais do que palavras circunstanciais, capacidade de legarmos às gerações vindouras e aos que perenemente se deixaram afogar pela voracidade do consumo mediático, a Cápsula do nosso tempo comum, não fechada, mas aberta, para que nada falte aos que acreditam que a consolidação da Democracia também se faz com base no Conhecimento e no seu aprofundamento. As comemorações oficiais dos 50 anos não podem, por isso, ser um espelho da precaridade efémera que, por vezes, norteia os fazedores deste tempo; tem de ser uma constante e construtiva metamorfose que abra caminho a uma atualização permanente do significado da Democracia. Braga tem aqui a sua oportunidade para dar significado à vontade de não esquecer. A seu modo e lugar, erguemos as fundações dos pilares do Estado de Direito, tivemos as nossas páginas negras, perseguições e prisões, obscurantismo geracional q.b., mas demos o nosso contributo para erguer a Liberdade. Nesta altura, em que homens e mulheres, esquecidos nos cadernos amarelados da ação política, merecem ser lembrados, o Movimento de Cidadania Contra a Indiferença prepara-se para o combate contra o Esquecimento, a ausência e a displicente natureza urbana que nos tolhe e nos remete para a vulgaridade humana. O próximo dia 24 é, igualmente, Dia do Estudante, coincidência feliz, para lembrar o papel essencial da juventude através dos movimentos associativos que, a partir de 1962, marcaram, de forma perentória, uma vontade de Mudança em Portugal. Uma exposição intitulada “Primaveras estudantis: da crise de 62 ao 25 de Abril”, estará disponível a partir de quinta-feira, no Museu de História Natural, em Lisboa, seguindo depois para Coimbra, um dos epicentros da revolta estudantil. Dois outros momentos marcam este arranque: a poesia de Alice Neto de Sousa e a composição de Bruno Penadas tocada pela Orquestra Geração. Os seus trabalhos, assim como a edição do Jornal Público desse dia, integram a Cápsula do Tempo que só será aberta nas comemorações dos 100 anos da Democracia, em 2074. Uma iniciativa antecedida pela homenagem a 30 militares pela Presidência da República. Um programa, que diz o coordenador das comemorações nacionais, Adão e Silva, “é um sinal de pluralidade, diversidade e de diálogo”, mas a que falta, neste instante, neste primeiro dia, a dimensão do lugar, do território. Dirão do simbolismo deste arranque, que a inevitabilidade da capital justifica, por si só, que olhemos para o comodismo com racionalidade. Contudo, todos os lugares, todas as esquinas da história que se construiu há quase meio século, de Norte a Sul, fazem parte da mesma simbiose democrática, da mesma palavra sem armas, do mesmo significado de Liberdade. A vantagem de estarmos a olhar para este arranque das comemorações, em Lisboa, é termos percebido, com tempo, que se queremos perceber o nosso lugar na história, cabe-nos a nós, em primeiro lugar, construí-lo e evocá-lo. É isso que faremos.
Autor: Paulo Sousa
DM

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20 março 2022