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A beleza na Liturgia

De uma entrevista ao «Notícias de Viana», de 17 de Janeiro, do Cónego Luís Manuel, pároco da Sé de Lisboa, a propósito do 41.º Encontro Diocesano de Liturgia de Viana do Castelo, tomo algumas afirmações que complementarei com palavras de Bento XVI.

Primeiro, o óbvio: a beleza não é sinónimo de «esteticismo», isto é, de pôr à frente de tudo os elementos exteriores e os adornos. Ao contrário, a beleza da liturgia brota de dentro para fora, porque brota da compreensão e assimilação crente, na fé, do mistério celebrado. Quem não sabe e não compreende bem, iluminado e movido pela fé, o que está a celebrar, nunca encontrará beleza na liturgia, nem quem preside o fará de uma maneira realmente bela e atractiva.

O centro da beleza, na liturgia, está na conjugação do rosto desfigurado de Jesus, na sua entrega amorosa na Cruz, com o corpo resplandecente do Ressuscitado, na manhã de Páscoa. «É entre estes dois opostos: o esvaziamento da Cruz e a força redentora da Ressurreição que se encontra a beleza da Liturgia». E deve ser sempre revestida de uma nobre simplicidade, como se diz na constituição sobre a Sagrada Liturgia.

«O coração da beleza da Liturgia é o mistério celebrado, meditado e vivido». Da compreensão e sedução crente que tal mistério suscitar em nós, brotará um olhar novo para as diferentes dimensões: a organização do espaço litúrgico e sua decoração; a iluminação e o som; os paramentos e alfaias utilizados; as condições de acolhimento das pessoas; a agilidade de circulação no espaço; a forma como se proclamam os diferentes textos, se dialoga comunitariamente e se recitam as orações; o canto verdadeiramente litúrgico que ajuda a interiorizar e a elevar o coração para Deus; o silêncio; a gestualidade e cuidado com todas as dimensões simbólicas do rito, devidamente entendidas por quem preside e por quem participa na celebração, etc.

Elucidativas, também, são algumas das passagens de Bento XVI na 'Carta ao Presidente do Pontífício Conselho da Cultura', Gianfranco Ravasi, em 24 de Novembro de 2008. «Uma procura da beleza que fosse estranha à humana busca da verdade e da beleza, transformar-se-ia, como infelizmente por vezes acontece, em mero esteticismo, e, sobretudo para os mais jovens, num itinerário que desemboca no efémero, no banal e superficial, senão mesmo numa fuga para paraísos artificiais, que mascaram e escondem o vazio e a inconsistência interior».

Isto porque é impossível esquecer a íntima conexão que liga a busca da beleza com a busca da verdade e da bondade. E se é inquestionável, para todos, que verdade e beleza se tocam, muito mais o é para o crente, chamado pelo Senhor a «dar razão a todos da beleza e da verdade da própria fé».

Porque a beleza das obras de que nos fala o Evangelho, manifesta e exprime, numa excelente síntese, a bondade e a verdade profunda do gesto, como também a coerência e a santidade de quem os realiza, pois que apelam sempre para uma outra beleza, verdade e bondade que, só em Deus, encontram a perfeição e a sua última fonte.

A nossa missão quotidiana deve tornar-se eloquente transparência da beleza do amor de Deus para que possa atingir eficazmente os nossos contemporâneos, que podem andar distraídos, mas sempre desejosos e nostálgicos de uma beleza autêntica, não superficial e efémera.

Mais uma nota: a celebrar com arte e com alma, sem as quais não há verdadeira beleza, aprende-se celebrando, saboreando e deixando-se gratamente surpreender por quem sabe imprimir vida à celebração, de um modo que nos fascina e atrai.

Sem dúvida que as nossas liturgias jamais conseguirão exprimir totalmente a infinita densidade do Sacrifício da Cruz, mas isso não nos dispensa de procurar com afinco e cuidar a beleza dos ritos, já que nada é demasiado belo para Deus, que é a beleza infinita. Mas podem e devem as nossas celebrações aproximar-se daquele grau de realização que nos aproxima e faz pregustar a alegria que só em Deus encontra plena realização.

O verdadeiro motor de uma celebração bela é o presidente. Se ele for exemplo de entrega, vivacidade, verdade e autenticidade em tudo o que diz e faz, as pessoas sentir-se-ão espicaçadas a querer saber mais e a aprofundar. Existindo tanto de simbólico num rito tão cheio de palavras, silêncio, gestos e outros elementos e ritos da eucaristia, força é que as pessoas vão sendo elucidadas para poderem aprofundar o sentido daquilo que estão a ver e ouvir e em que participam.


Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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9 fevereiro 2019