Não poucos de entre os mais especializados e produtivos, vendo-se progressivamente encostados ao salário mínimo, partem, inflacionando a nossa diáspora e deixando o país mais pobre.
Um país com muita história, fixado em horizontes benignos que teimam em afastar-se. Pode bem ser esta a representação de Portugal vislumbrada pelos portugueses.
Num país com cerca de novecentos anos de independência (uma “excentricidade” mundial para um pequeno país), apenas entrecortada pelos 60 anos de domínio filipino, o registo de períodos de crise impõe-se inevitável. Mas as crises, as debilidades ou a míngua bem que poderiam ter-se mostrado mais espaçadamente em Portugal, acertamos todos.
Numa célebre análise com cerca de 150 anos, na conferência “Causas da decadência dos Povos peninsulares” Antero de Quental insurgia-se contra a crescente divergência no desenvolvimento, desde 1500, da Península Ibérica relativamente à Europa desenvolvida do Centro-Noroeste. Acutilante, embora com alguns erros factuais, Antero execrava a delapidação dos proventos obtidos com a Expansão e o prolongamento do Absolutismo régio no quadro da Contrarreforma Católica.
A República por que Antero (socialista) ansiava chegaria cerca de 40 anos depois, envolta num manto messiânico. Dezasseis anos turbulentos e uma guerra mundial pelo meio, não obstante a melhoria de alguns indicadores sociais, não permitiram resgatar Portugal do subdesenvolvimento.
O Estado Novo denunciará as malfeitorias da República precedente e alimentará o patriotismo e o imaginário de uma grandeza nacional, enviesando a nossa História. Todavia, quando a ditadura termina, a despeito do acelerado crescimento do PIB na década de 60, o país persiste como o mais pobre da Europa Ocidental.
Agora, quase cinquenta anos depois do 25 de Abril e quatro décadas após a adesão à CEE, depois de absorvidos muitos “fundos europeus” temos excelentes autoestradas, muitas casas bonitas, já quase não temos analfabetos, e temos até um crescente número de doutores, mas não conseguimos deixar de ocupar uma posição na cauda da Europa no atinente aos indicadores socioeconómicos.
Quiçá, será mesmo uma maldição coletiva. Porventura, mais do que aos sucessivos governos talvez tenhamos antes de imputar, em boa parte, ao coletivo dos portugueses a responsabilidade por esta “fatal atração” pela mediania. “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, questiona-te antes sobre o que podes fazer pelo teu país”, a célebre exortação de J. F. Kennedy aos seus compatriotas, em 1961, persistirá atual e, logo, comprometedora para cada um de nós, no plano individual.
Em Portugal, temos um estado social bastante generoso atendendo à riqueza que criamos (PIB). Porém, não crescemos economicamente, de forma visível, há muitos anos, a produtividade não escala e, mais, o fator trabalho mostra-se pouco premiado na repartição da riqueza nacional.
Para lá das desvantagens da nossa condição de país periférico afastado da Europa mais desenvolvida, para lá da nossa atração (o Estado, as empresas e as famílias) pela dívida, o que limita a alavancagem para o investimento e o crescimento, a depreciação do mérito individual, sentida hoje por muitos, ter-se-á também tornado numa eventual razão para esta cruel mediania.
Quadros ou trabalhadores especializados veem-se cada vez mais mal pagos no estado, como em muitas empresas privadas. Com salários reais vulgarmente mais baixos do que há cerca de uma quinzena de anos, são tentados pela emigração e deixam de pensar “no que podem fazer pelo seu país” (daí, por exemplo, a dificuldade do Estado em recrutar médicos, tal como enfermeiros, a despeito de o país ser excedentário na sua formação; os candidatos a professor, todos o sabem, também escasseiam).
O salário mínimo, apesar de subidas recentes mais generosas, permanece baixo em Portugal. Mas neste tempo novo, em que a elevada inflação retornou sem os correlativos aumentos salariais, não poucos de entre os mais especializados e produtivos (entre os quais também imigrantes), vendo-se progressivamente encostados a esse referencial, partem, inflacionando a diáspora e abatendo o potencial de crescimento do país. As classes médias portuguesas estão a minguar e muitos jovens perspetivam-se hoje num horizonte pessoal de maior carência do que os seus pais. Num país ainda com muitas debilidades, temos de descobrir engenho para reanimar a estrada do desenvolvimento, temos de seduzir os melhores.
Autor: Amadeu J. C. Sousa