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E assim começou o Mundial…

 



 

Como bom adepto de futebol, fui ao supermercado abastecer-me de alguns snacks e bebidas para assistir aos jogos do Mundial. Como qualquer consumidor, dei por mim a reparar que tudo está mais caro. Uns cêntimos aqui, mais um euro ali. No regresso a casa surgiu outro motivo de irritação: um camião ocupava cinco lugares de estacionamento e, para conseguir estacionar o meu carro, tive de dar mais algumas voltas.

A primeira reação é quase automática: "Os camionistas não deviam estacionar aqui." E, de facto, os veículos pesados são vistos como "persona non grata". Mas, por detrás desse incómodo, existe uma realidade que raramente discutimos.

Todos queremos supermercados abastecidos, encomendas entregues num curto espaço de tempo e produtos disponíveis quando deles precisamos. Esquecemo-nos, porém, de que praticamente tudo o que consumimos chega até nós por estrada. O transporte rodoviário de mercadorias é um dos pilares da nossa economia.

As regras relativas aos tempos de condução e descanso, fundamentais para a segurança de todos os utilizadores da estrada e dos próprios motoristas, tornaram-se mais exigentes, e ainda bem. Ainda no dia 18 de Agosto de 2025 terminou o prazo para substituição para tacógrafos inteligentes. O problema é que muito pouco ou nada é feito para lhes dar as condições necessárias, por forma a cumprir essas regras. Faltam parques de estacionamento seguros, áreas de descanso com instalações dignas, algo tão básico como um balneário para banhos, e locais onde os motoristas possam repousar em segurança.

Perante esta falta de infraestruturas, acabam por estacionar onde conseguem e não onde gostariam. E não se trata apenas de uma questão de comodidade. A inexistência de parques seguros faz com que os roubos de mercadorias e de combustível sejam uma realidade frequente, bem como os atos de vandalismo sobre os veículos. Cada assalto representa milhares de euros em prejuízos, seguros mais caros, atrasos nas entregas e custos adicionais para as empresas.

Esses custos operacionais acabam sempre por chegar ao mesmo destino... o consumidor final.

Quando uma transportadora vê o combustível ser furtado, uma carga roubada ou um motorista multado porque é obrigado a ultrapassar o seu tempo de condução para encontrar um local onde possa estacionar em segurança, alguém acaba por pagar essa fatura. E esse alguém somos todos nós, sempre que vamos ao supermercado ou compramos qualquer produto.

Braga não está preparada para esta realidade. Os seus parques industriais não oferecem condições para o estacionamento de veículos pesados, nem garantem aos motoristas os mínimos de higiene, segurança e conforto.

Falta uma visão estratégica para a cidade. E nem falo do longo prazo; falo do imediato. O Parque Industrial de Celeirós e Aveleda é um exemplo evidente. O novo PDM prevê uma expansão significativa da área industrial, mas nem existem estacionamentos dedicados para camiões, instalações sanitárias ou qualquer sistema de vigilância.

Imaginem um parque industrial com controlo de acessos 24 horas por dia, estacionamento suficiente para veículos pesados e balneários. Estaríamos a garantir mais segurança para as mercadorias, melhores condições para os motoristas e menos camiões estacionados em zonas habitacionais.

Enquanto se continuar a não investir em parques de estacionamento seguros nas zonas industriais para os camionistas, como áreas de descanso adequadas e infraestruturas logísticas modernas, continuaremos a assistir ao mesmo cenário: camiões estacionados onde não queremos, motoristas sem condições de descanso, mercadorias vulneráveis ao crime e custos logísticos cada vez mais elevados.

Talvez esteja na altura de deixarmos de olhar para os camiões como um incómodo e começarmos a vê-los como aquilo que realmente são: uma peça essencial da nossa economia. Porque, no final, quando não damos condições a quem transporta os produtos de que dependemos todos os dias, somos nós próprios que acabamos por pagar a conta.

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Pedro Ferreira

2 agosto 2026