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“Fake News” em Saúde

O anglicismo “fake news” passou a estar presente no léxico corrente do nosso quotidiano. Mostramo-nos preocupados com a desinformação que assombra o contexto informativo, deixando de ser um mero debate académico e tornando-se numa questão de saúde pública.

Qualquer desinformação ou mentira sobre, a título de exemplo, vacinas, dietas milagrosas ou curas instantâneas não se limitam ao formato da sua apresentação: transformam-se em consultas adiadas, tratamentos interrompidos e decisões que poderão colocar vidas em risco.

Neste cenário ruidoso, o jornalista não é um comentador distante. Cada palavra que escolhe pode aproximar alguém da proteção, ou do perigo.

As notícias de saúde sempre foram delicadas. Mexem nos receios mais íntimos de todos: o medo de adoecer, sofrer ou morrer. Na realidade, o que mudou foi o ecossistema onde circulam. Hoje, competem num terreno dominado por redes sociais, influenciadores e plataformas que privilegiam o que choca, simplifica e polariza. Uma promessa milagrosa num vídeo curto viaja imensuravelmente mais depressa do que qualquer explicação ponderada. E o algoritmo quase sempre favorece o impacto imediato e não o esclarecimento objetivo e sereno.

Por isso, o jornalista que verse estes temas deixou de ser apenas um tradutor de uma linguagem de profissionais de saúde. Tornou-se um verdadeiro agente de saúde pública. Ao decidir que estudos citar, que conflitos de interesse revelar ou que dúvidas assumir, pode construir confiança ou alimentar o cinismo que abre espaço às teorias da conspiração.

O jornalismo responsável não repete comunicados, testa a evidência com o mesmo rigor que se exige antes de um medicamento chegar ao mercado. Explica o que se sabe, o que ainda não se sabe e o que não é possível saber. Sem atalhos. Mas há uma tensão inevitável: o jornalismo contemporâneo vive da corrida ao clique. Títulos que prometem “o alimento que cura tudo” ou “o estudo que muda a medicina para sempre” seduzem leitores e anunciantes, mas traem o serviço público que deveriam defender. Em saúde, exagerar é uma forma de mentir. Cria expectativas impossíveis, banaliza o risco e transforma casos raros em ameaças constantes. Talvez seja tempo de reivindicar para o jornalista que trabalhe temas da saúde uma espécie de juramento de Hipócrates próprio.

Podemos traduzir estes princípios em práticas concretas: verificar a origem de cada dado; consultar especialistas independentes; confrontar tendências virais com orientações científicas credíveis; contextualizar estudos preliminares; e, sobretudo, saber dizer “não sabemos”, quando a ciência ainda não tem resposta.

Num tempo em que até relatórios oficiais reconhecem o impacto social e político da desinformação, o jornalismo que assume a dúvida honesta é, paradoxalmente, o que mais protege.

Mas o combate às “fake news” não se ganha apenas dentro das redações. Ganha-se na relação com leitores que recusam ser meros consumidores passivos. Quando um em cada três portugueses se cruza diariamente com informação falsa ou enganosa, a literacia mediática deixa de ser um luxo: é uma condição de cidadania. Cabe aos meios de comunicação ajudar o público a fazer perguntas simples, mas poderosas: Quem ganha com esta mensagem? Onde está a fonte? Porque é que esta história me aparece agora?

É tentador culpar a tecnologia. Mas o problema não é a ferramenta, é entregarmos a conversa sobre a nossa saúde a quem não responde perante ninguém. As plataformas têm responsabilidades, sim, mas não substituem quem assina o que publica e responde por isso. Essa é a diferença essencial entre jornalismo e ruído: a consciência de que cada frase tem impacto real na vida de alguém.

Se as “fake news” fragilizam a esfera pública, o jornalismo de saúde pode, e deve, ser parte da terapêutica. Não curará tudo, nem sozinho. Mas pode fortalecer o sistema imunitário democrático: preparar o cidadão para reconhecer a desinformação e resistir a ela.

Num tempo em que até a palavra “verdade” parece suspeita, talvez a responsabilidade mais urgente do jornalista seja esta: não oferecer certezas fáceis, mas praticar um rigor que inspire uma confiança adulta, feita de transparência, ponderação e responsabilidade partilhada.

Mário Peixoto

Mário Peixoto

29 novembro 2025