O arquipélago dos Açores é constituído por nove ilhas, na imensidão do Atlântico: as ocidentais S. Miguel (conhecida como “Ilha Verde”) e Santa Maria1; as centrais Terceira, S. Jorge, Graciosa, Faial2 e Pico3; e as orientais Flores e Corvo. Diferentes entre si, todas têm em comum o azul do mar, o verde dos campos e, em boa parte, o roxo das hortênsias; a devoção ao Senhor Santo Cristo e ao Espírito Santo; e o nevoeiro cerrado que, subindo do mar, as torna conhecidas como “ilhas de bruma”.
Em trabalho e/ou em lazer, já tinha visitado quatro dessas ilhas: S. Miguel, Terceira, Faial e Pico. Ali, onde o mar abraça a terra e as gaivotas a vão beijar; onde as montanhas tocam o céu e a vista se encanta com tanta beleza e se espraia para o infinito (mar adentro e até ao firmamento), consigo descansar o corpo e o espírito como em mais lado nenhum.
Na semana passada, usando Ponta Delgada como plataforma, visitei Santa Maria e S. Jorge, diferentes entre si, mas cada qual com os seus encantos. Santa Maria, a Ilha do Sol e dos fósseis, é a mais antiga e a mais quente dos Açores. Em 1493, passou por lá o navegador Cristóvão Colombo. S. Jorge é talvez a ilha mais selvagem, onde as falésias mergulham vertiginosamente para o mar, ao encontro das fajãs4. É célebre pelo queijo e pelos trilhos. Sobre elas, escreverei na próxima semana.
Em todas, é possível fazer passeios a pé, a cavalo ou de bicicleta (os trilhos, de maior ou menor dificuldade, desvendam diferentes e deslumbrantes paisagens); mergulhar5, praticar canoagem, surf ou golfe6; observar cetáceos e aves7; entrar no interior de um vulcão; mergulhar em piscinas naturais e tomar banho quente nas termais; provar o cozido das Furnas; extasiar-se com o nascer ou o pôr do sol. É tão grande e qualificada a oferta que, em 2023, este arquipélago foi considerado o “Melhor destino de aventura do mundo” e, em 2024, ganhou, pela quarta vez, o galardão de “Melhor destino de aventura da Europa”.
Gosto da história e da variedade paisagística dos Açores: mar e lagoas (Sete Cidades, Fogo e Furnas são as mais famosas, mas há outras... e bem interessantes!), cachoeiras e cascatas8, fajãs e jardins (botânicos e não só!), florestas luxuriantes, trilhos e miradouros. Gosto do seu património edificado: Igrejas (no geral, ricas e bem cuidadas), palácios e museus (muitos e de grande valor histórico, natural e artístico). Gosto da sua gastronomia: o bolo lêvedo de S. Miguel, a alcatra da Terceira, os torresmos de vinha d’alhos do Faial, as amêijoas e o queijo de S. Jorge, o vinho branco do Pico e o caldo de nabos de Santa Maria são apenas alguns dos pratos ou petiscos que aprecio. Se somarmos a tudo isso as lapas e o bife de atum, eis-nos perante um cardápio de fazer crescer água na boca e de exponenciar a indecisão de quem não só aprecia comer, como gosta de tudo. Aprecio também os açorianos, amigos do seu amigo e hospitaleiros, as suas músicas (carregadas de nostalgia) e o seu clima (de tal variedade que chega a percorrer todas as estações no mesmo dia!).
A minha primeira viagem a S. Miguel, no verão do já longínquo ano de 1994, não só foi o meu batismo de voo, como também o meu primeiro e maior deslumbramento, entre os muitos que as viagens me têm proporcionado. E de tal forma que, depois de, em 2018, ter estado em Bali, disse a quantos me questionaram sobre a sua beleza: “se não conhecesse S. Miguel, Bali teria sido o lugar mais belo que visitei”. É certo que também gostei muito do Pico (da montanha e das vinhas) e da Terceira (sobretudo de Angra do Heroísmo, Património Mundial da UNESCO), mas mais de S. Miguel, com a sua variedade e beleza. Tendo em conta as ilhas que até ao momento visitei, concluo que S. Miguel é uma síntese de todas elas. Que o digam os açorianos...
Para concluir, entendo que deveriam ser dadas condições e oportunidades a todos os portugueses do continente para poderem visitar os Açores9, descobrindo esses tesouros lusos e deles desfrutando. Com algum controlo dos fluxos turísticos, é certo, mas ajudando-os a descobrir Portugal, porque não conhecer os Açores é, na minha modesta opinião, desconhecer uma das partes mais belas e interessantes do nosso país.
1 Santa Maria foi descoberta em 1427, por Diogo Silves, e redescoberta em 1432, por Diogo Velho Cão, que foi quem descobriu também S. Miguel.
2 Nesta ilha, o mais famoso é o vulcão dos Capelinhos. Teve a sua última erupção em 1957 e o seu Centro de Interpretação já foi nomeado como o melhor museu da Europa.
3 Recebe o nome do seu vulcão, que, com 2350 metros de altitude, é o ponto mais alto da Ilha e de Portugal.
4 A fajã é uma pequena planície verdejante que teve origem em deslizamentos de terras (detríticas) ou lava (lávicas) e que se estende mar adentro. Todas elas são de uma beleza ímpar.
5 É possível observar cinco espécies de tartarugas marinhas, cetáceos e cerca de 600 espécies de peixes.
6 O arquipélago tem três campos e o clima permite praticar este desporto em qualquer estação do ano.
7 Devido à sua posição central no Atlântico, é possível observar diversas espécies migratórias, tendo sido registadas mais de 400 espécies.
8 A cascata do Aveiro, na Maia (Santa Maria), com mais de 110 metros de altura, é a maior de Portugal.
9 Em férias de despesas contidas e ficando-se apenas por uma das ilhas, uma família de quatro pessoas gastará cerca de quatro mil euros, um valor proibitivo para a maior parte dos agregados familiares portugueses.